quarta-feira, 14 de Outubro de 2009

Wittgenstein Design

Este puxador de porta data de 1927 e é de autoria do filósofo Wittgenstein por altura da construção da casa de sua irmã em Viena. É apreciado hoje em dia pelo amantes da Bahaus devido à sua elegância prática e finura.

quarta-feira, 30 de Setembro de 2009

Liberdade: as 7 perguntas de Churchill


Em período inter-eleitoral convém recordar as 7 perguntas que Winston Churchill fez acerca da Europa de 1944 a propósito de saber se existia ou não Liberdade nos Estados.


Existe liberdade de expressão de opiniões e de oposição e crítica ao governo que se encontra no poder?

Os cidadãos têm o direito de destituir um governo que considerem censurável e estão previstos meios constitucionais de manifestarem a sua vontade?

Existem tribunais que estão ao abrigo de violência por parte do executivo ou de ameaças de violência popular e sem nenhumas ligações com partidos políticos específicos?

Poderão esses tribunais aplicar leis claras e bem estabelecidas que estão associadas, na mente das pessoas, ao principio geral da dignidade e da justiça?

Há equidade para os pobres e para os ricos, para os cidadãos comuns e para os detentores de cargos públicos?

Existe a garantia de que os direitos dos indivíduos, ressalvadas as suas obrigações para com o Estado, serão mantidos, afirmados e enaltecidos?

Está o simples camponês ou operário, que ganha a vida trabalhando e lutando diariamente para sustentar a sua família, livre de receio de que uma qualquer organização policial sinistra controlada por um partido único, como a Gestapo, criada pelos partidos Nazi e Fascista, lhe bata à porta e o leve para a prisão ou para ser sujeito a maus-tratos, sem um julgamento justo e público?

quinta-feira, 20 de Agosto de 2009

Turismo Filosófico IX - Valladolid: Os Indígenas tem Alma?


Colégio de São Gregório, Valladolid


Local: Colégio de São Gregório, Valladolid

Anos: 1550 e 1551

Acontecimento: O Conselho das Índias Espanhol reúne-se com a seguinte ordem de trabalhos: qual o estatuto antropológico dos indígenas das Américas?

Intervenientes: Bartolomé de las Casas e Ginés Sepúlveda, mas também Domingo de Soto, Bartolomé de Carranza e Melchor Cano, entre outros.





Em Valladolid encontramos em 2009 o mesmo Colégio Teológico que entra para a história pelas controvérsias ocorridas em 1550 e 1551 e que opuseram dois teólogos influentes da época: Bartolomeu de las Casas e Ginés Sepúlveda.
Ginés Sepúlveda é um autor conhecido da época, com bastantes obras editadas e de conhecimento do público, aristotélico e que usa o Antigo Testamento como base para as suas visões: a construção de um edifício filosófico colonial. Sepúlveda será sempre um defensor da legitimidade dos espanhóis e dos ocidentais na conquista das Américas, o projecto é simples: é preciso dominar os indígenas já que estes não entendem as coisas.
Bartolomeu de las Casas segue um caminho inovador para a época, sendo até considerado percursor dos modernos Direitos Humanos. Segundo Las Casas, os indígenas eram humanos de pleno direito, negando a teoria da servidão natural dos Bárbaros, classifica estes indígenas como estando no quarto lugar dos tipos que há de barbárie: a categoria daqueles que não conhecem Cristo. A estes casos apenas se deve tirar o pecado de seus corações para que depois se convertam a Deus.



Sala do conselho teológico em Valladolid, e, símbolo jesuíta.



Teses de Ginés Sepúlveda:


- Os indígenas são propícios a uma escravatura natural. O facto de serem incapazes de auto-governação torna-os susceptíveis de serem controlados pelo povo espanhol.

- É imperioso impedir o canibalismo e outras condutas anti-naturais que os indígenas possuem.

- É obrigação dos espanhóis salvar futuras vítimas inocentes que seriam sacrificadas por adorar deuses falsos.

- A conquista espanhola justifica-se pelo mandato que Cristo deu aos Apóstolos e o Papa deu ao Rei de Espanha.


Teses de Bartolomeu Las Casas:

- Nenhum rei pode efectuar jurisdição fora do seu país.
- As crueldades que os indígenas fizeram, e que Sepúlveda refere, não são muito diferentes daquelas que também são ou já foram praticadas pelos Europeus no Velho Continente.
- Há que tolerar os ritos pagãos para que possam ser convertidos em fé Cristã.
- Os indígenas são dotados de racionalidade, uma dessas provas é o alto nível arquitectónico que alcançaram.
- Todos os Homens estão inclinados a honrar a Deus, com o melhor sacrificio que lhe podem oferecer (Tese inspirada em São Tomás de Aquino).
- Não existe canibalismo nos indígenas, mas sim oferendas. A oferenda é um Direito Natural de qualquer povo religioso. Todos os Homens pensam igual no que diz respeito ao Direito Natural, mas diferem nas leis e instituições.

Em 1551 e depois de dois anos de debate, Domingo de Soto elabora um resumo das discussões. O resultado final é inconclusivo, não há vencedores ou vencidos. Sabes-se que este Conselho acaba por decretar o fim das conquistas e a ilicitude da escravidão dos Indíos, mas tal não veio a acontecer de forma factual nos anos próximos. Las Casas chama a atenção para isso, tenta editar cópias piratas com os seus argumentos, mas a iluminação de consciências demorou...

Igreja de São Gregório

Este Colégio pode ainda hoje ser visitado, embora não totalmente. Algumas partes foram destruídas e outras alvo de modificações notantes. As obras de restauro actualmente em curso permitem visitar a Igreja e o Conselho dos Teólogos, já os dormitórios por exemplo estão encerrados, entre outros espaços. Em compensação o visitante tem direito a entrada gratuita. Vale a pena a visita já bem próxima de Portugal.

Com este último ponto acabo a minha visita e estes 9 capítulos de turismo filosófico a locais que me pareceram relevantes. 6500 km ficaram para trás, as planícies de Salamanca e Ciudad Rodrigo cheiram a Portugal... a caminho chego.

quarta-feira, 19 de Agosto de 2009

Turismo Filosófico VIII - «Uma nova natureza, um outro mundo»*

* J. Epstein referindo-se ao cinema,
Bonjour Cinéma (1921)




A criação do cinema, invenção atribuível a várias personalidade dedicadas à duplicação da realidade, tem um cunho especial na cidade francesa de Lyon. Foi aqui que os irmãos Lumiére criaram a máquina que iria revolucionar o mundo, projectando imagens numa velocidade tão elevada que fazia parecer que estas estavam de facto em movimento.


É sabido que esta invenção de um imaginário com suporte tecnológico não se ficou a dever unicamente a estes irmãos: na verdade o primeiro filme nem é de suas autorias. Por várias razões contudo, a patente do cinema é aplicada aos Lumiére. Muito menos o são também, pioneiros da duplicação - a fotografia era já uma realidade há muitos anos, contudo, a velocidade com que estes colocaram estas imagens a passar, tornou a visão da realidade mais dinâmica e mais perto do real.


Imagine o leitor o que seria viver num determinado local e apenas contar com a visão que presenciava na sua frente em comparação com ver imagens a passar à sua frente de sitíos muito diferentes dali. Os Lumiére fizeram isso... criaram a primeira equipa de realizadores que enviaram para várias partes do mundo no intuito de filmar, e apenas filmar, o que por lá se passava num registo quase documentário. O primeiro confronto no cinema entre realidade e imaginação é de origem francesa. Se os Lumiére tinham fé na sua invenção que com a sua objectiva iriam mostrar um mundo objectivo, Mélies é o primeiro a partir para a ficção, e a defender que a função da objectiva é a subjectividade.

Filhos de uma família abastada, os Lumiére preparavam uma invenção que poderia trazer o mundo inteiro, tal como era, para junto de qualquer um, onde quer que tivesse. A este facto acompanha o fenómeno da duplicação, isto é, a realidade tem possibilidade de ser reproduzida, os momentos podem ficar gravados e serem visionados já depois de terem exisitido. Começa uma série modificações sócio-psicológicas que irão marcar o Séc. XX.


Casa-Museu dos Irmãos Lumiére. Nas traseiras o jardim onde filmaram-se pela primeira vez a regar as plantas.



À semelhança de hoje em dia, a reprodução da realidade foi muitas vezes tomada como a verdadeira realidade, não conseguindo o espectador discernir a cópia do original, facto disto estão os acontecimentos ocorridos durante o visionamento do filme "L'arrivé d'un train à la Ciotat", que pode ser visionado em baixo.




Segundo relatos da época, algumas pessoas sentadas do lado esquerdo do ecrã entraram em pânico, pensando que o comboio ia sair da tela. Há teses a desmentirem este acontecimento, no entanto, o facto de esta estória existir já revela um novo sentimento em relação ao cinema e sua relação com a realidade.


Este jogo entre real e o seu duplo estaria ainda apenas no ínicio, seria preciso ver o futuro onde a duplicação ganha pretensão do real, substituindo-o, e, uma vez ganho o estatuto de realidade, começa a transformá-la em mito e subversão objectiva. Com jogos de tempo e espaço, como um porco que entra numa máquina de onde saem constantemente salsichas, que em rewind faz o público assistir atónico a umas salsichas que se transformam num porco, e, com recurso a takes, depressa estamos em Nova Iorque como na Indochina num jogo rápido e impossível no formato que a realidade em que vivemos tem.

Videos dos Irmãos Lumiére: A Indochina surge em França da forma mais cruel e realista possível no Séc. XIX: colonas brancas francesas dão comida às populações locais como se de pombos tratassem. Um olhar sobre o colonialismo francês sem filtros.

Irmãos Lumiére: Nova Iorque em 1896

Esta nova forma de publicação de sonhos, mas também de reproduções da realidade faz merecer uma visita a Lyon e à casa dos irmãos Lumiére, agora tranformada em Museu. Está aberta de Terça a Domingo, das 11h00 às 18h00 e os preços rondam sensívelmente 5 euros. Na parte de trás da casa encontramos imediatamente a fábrica mais famosa do cinema talvez. Trata-se do local onde foi filmado o primeiro filme, afirmação não de todo rigorosa, mas assim ficou para a tradição. O filme é simples e cruelmente realista, como os Irmãos Lumiére gostavam e defendiam. Infelizmente um incêndio danificou a quase totalidade da fábrica e o processo da sua musealização não foi do melhor gosto, mesmo assim vale a pena a visita.

Fábrica onde foi filmado o "primeiro" filme da História do Cinema







Saída dos operários de uma fábrica, filme de 1895 e o mesmo local em 2009.


"Basta às vezes um tudo-nada de devaneio, de imaginação, de antecipação, para que a emocionante imagem cinematográfica se veja súbitamente exaltada às dimensões míticas do universo dos duplos e da morte. Consideremos o cinema futuro imaginado pela ficção científica. Vemos desenhar-se o mito último da cinematografia, que é, ao mesmo tempo, o seu mito original: o cinema total, que catapulta para um futuro insondável o que germina no próprio núcleo da imagem, revela-lhe os poderes latentes"

Edgar Morin

in "O Cinema ou o Homem imaginário"

terça-feira, 18 de Agosto de 2009

Turismo Filosófico VII - (A Universidade de) Freiburg



Freiburg im Breisgau, Alemanha, tem uma posição geográfica privilegiada: a poucos quilómetros encontramos a França ou a Suiça, mas também grandes lagos e florestas. O único encanto de Freiburg não reside contudo apenas nos seus vizinhos: a cidade vive por si só: tem personalidade, é carismática e uma história bastante invejável.



É impossível falar em Freiburg sem se falar na sua notável Universidade, neste sentido, Freiburg é uma verdadeira cidade-universitária. Cruzam-se nas ruas gente de diferentes nacionalidades com os seus livros na mão, cadernos, ipods. Uma geração jovem sente-se atraída pelo andar de bicicleta (há uns anos diríamos que estávamos em Pequim), não fosse esta cidade uma das mais emblemáticas na luta contra o aquecimento global. Os parquímetros proliferam, praticamente é impossível estacionar sem pagar, e os preços não são convidativos.



Estátuas de Homero e Aristóteles na entrada da Universidade de Freiburg. Na parte lateral da estátua de Aristóteles lê-se «Todos os Homens por natureza desejam saber»

O edificio da Universidade onde é leccionado filosofia é também um corpo principal na cidade. Embora fundada em 1457, este belo edificio foi construido já em 1911 o que não lhe tira o charme. "Die Wahrheit wird euch frei machen" - "A verdade tornar-te-á feliz" é a inscrição que encontramos na fachada também embelezado pelas estátuas de Aristóteles e Homero.



Freiburg pode orgulhar-se de ter 18 prémios Nobel a si associados. Foi também a primeira Universidade alemã a aceitar uma estudante feminina, em 1900. Nos primeiros anos do séc. XX por aqui andou Husserl, sendo um marco na ideia da fenomenologia, simultaneamente, o neo-liberalismo viria aqui a ter nascimento.



Com a ascensão do Nazismo, a Universidade sofre um saneamento. Tendo como reitor Martin Heidegger, os judeus são daqui expulsos, o que constitui talvez o ponto mais negro da sua história.


À parte pontos negros, a quantidade de nomes que vemos associados é invejável: Max Weber, Leo Strauss, Edith Stein, Herbert Marcuse, Karl Löwith, Emmanuel Lévinas, Karl Jaspers, Martin Heidegger, Edmund Husserl, Annah Harendt, Walter Benjamin, Rudolf Carnap, Erasmo de Roterdão e tantos outros numa lista que não acaba.


É sem dúvida uma referência na Filosofia Alemã e Ocidental, vale a pena a uma visita. E após a Universidade há mais: as ruas, os monumentos, as esplanadas floridas à sua volta. Se a urbe for demasiado para o visitante, opte pela Floresta Negra, mesmo ali ao lado, mais inspirador não pode haver...

segunda-feira, 17 de Agosto de 2009

Turismo Filosófico VI - A Zurique de Jung

Parte-se de seguida para Zurique à procura de Jung como quem parte para Lisboa à procura de Pessoa. Certas personalidades não se dissociam do seu local de vivência, é válido para Andy Warhol e Nova Iorque, Kant e Königsberg ou Kafka e Praga. Normalmente, os génios em ascensão necessitam de viajar e viver um pouco por todo o lado, a fim de obterem novos estímulos, mas também para dar a conhecer ao mundo os seu esforços. Certas personalidades não tiveram contudo a necessidade de desterros tão prolongados, e, se as suas vidas não se caracterizaram por um cosmopolitismo, as suas condições provincianas em nada pareceram alterar a riqueza que ofereceram ao mundo.

É nestes pensamentos que chegamos a Zurique, terra de onde Carl Jung raramente saiu, não deixando de cultivar uma relação próxima com o resto de mundo.

O tanto de si que Jung ofereceu a Zurique, não encontra no entanto, retorno por parte desta cidade. Zurique não é como Praga monopolizada por Kafka ou Königsberg por Kant: tem tantas personalidades a quem prestar homenagem, que Jung por si só não poderia ser a sua iconografia. Einstein, Lenine, Joyce, Wagner, Mann ou Zuínglio, tudo personagens que viveram em Zurique, muita gente para uma cidade só, cujo peso histórico se faz sentir na arquitectura que a Europa vê chique, mas que corresponde ao peso de toda esta cultura de diferentes quadrantes do conhecimento, e que encanta o local com civilização, mentalidade e intelectualidade transdisciplinar.

Entre as montanhas dos Alpes, o Lago Kusnacht e a Floresta Negra. A poucos quilómetros de vários países: França, Alemanha, Lietchenstein, Áustria ou Itália, a Zurique de difícil acesso não deixou de estar em contacto com diferentes culturas onde ali mesmo tinham o seu ponto de tensão: Catolicismo e Protestantismo, Mundo Latino e Mundo Germânico ou, hoje em dia, União Europeia e Isolacionismo. As condições geográficas de Zurique proporcionaram-lhe ser um ponto de passagem entre estes mundos, e que pelos vistos soube aproveitar bem.

É neste contexto de multi-ideias que a Suíça se construiu, num contexto de incerteza, tão relativa até originar um certo isolamento actual. O país-chocolate com paisagens de conto de fadas constituiu certamente o solo da Filosofia de Jung, tão especulativa, mas tão esteticamente acertada. Não querendo com isto afirmar que Jung produziu obras de artes, mas somente que o seu pensamento aliou a sensibilidade aos pressupostos racionais, e o empirismo a uma metafísica muito sua ( e de outros povos do mundo). Jung foi uma das reacções ao espírito científico, propondo uma terapia analítica mais abrangente. Se o conceito de arquétipo choca com os princípios da psicologia comportamentalista, ou o conceito de sincronicidade com os princípios causais de epistemologia contemporânea, Jung não deixou nunca de ser estudado por quadrantes científicos. A associação de palavras é ainda hoje relevante e a teoria de união de opostos influenciou a teoria molecular de David Bohm.

Lago Kusnacht

Na sua casa à beira do Lago Kusnacht, Jung teorizava sobre o simbolismo da água:

"[os filósofos] dizem que toda a ação e substância da obra nada são além da água; e que o seu tratamento também não ocorre senão na água... E sejam quais forem os nomes que os filósofos tenham dado à sua pedra, eles sempre se referem a essa substância, isto é, à água de que tudo [se origina] e na qual tudo está [contido] , que a tudo rege, na qual são cometidos erros, e na qual se corrigem os próprios erros. Dou-lhe o nome de água "filosofal", não água comum, mas aqua mercurialis"

Carl Jung, Estudos sobre a Psicologia e a Alquimia



Lago Kusnacht


Na Suíça Calvinista imbuída no espírito da predestinação, usava o inconsciente colectivo o I-Ching ou a astrologia para desenvolver o conceito de Destino e da morte, o estado Fénix do Homem. Na Suíça das três línguas, via no Latim inacessível o que o que os indianos viam no Sânscrito: línguas sagradas e de acesso a outros níveis da realidade.


Jung na sua casa em Küsnacht, Zurique

A Zurique da primeira metade do século XX, foi a Zurique da Filosofia de Jung: com belezas naturais místicas, aberta a pensamentos diversos e terreno fértil para actividades terapêuticas. A Zurique de hoje em dia ainda é a Zurique de Jung, maior, mais cimentada, mas com a manutenção do toque aristocrático que permite um certo romantismo. Ainda é um dos destinos preferidos para práticas terapêuticas, sendo a oferta variada e possuindo uma investigação notável neste campo. O consultório de Jung ainda lá permanece, junto ao lago Küsnacht sob a forma de instituto de investigação, com o seu nome.

Turismo Filosófico V - Tolerância e Anti-semitismo




Hohenems é uma pequena localidade austríaca cuja história não pode ser contada sem a presença dos judeus cujo peso social e sobretudo económico se fez verificar durante mais de 300 anos. Chegados em 1617, os judeus foram responsáveis por um notável desenvolvimento da vila, abrindo a primeira casa de café em 1797, o primeiro banco e a primeira companhia de seguros em 1841. O cemitério que ainda hoje existe, data da chegada dos judeus à localidade, tendo sido enterrados ao longo dos tempos neste mesmo cemitério tanto judeus como não-judeus. A História não conta problemas relevantes relacionados com misturas culturais numa localidade com tão pouca população. Os 12% que constituíram no seu máximo a população judaica não fez deste povo algo isolado, pelo contrário, histórias há de casamentos com cristãos. O bairro judaico situa-se mesmo no centro da vila, o que atesta decerto, a incontornabilidade destes na sua História.






Bairro Judaico

Até que chegou 1939... nesse ano Hitler anexa a Áustria e cumpre a sua política de deportação de judeus para campos de concentração. Hohenems não escapou à excepção e a sua população judaica rapidamente decresce para o número de zero. Alguns conseguem escapar à deportação exilando-se, ao que hoje em dia esta pequena vila fala com orgulho de uma "Diáspora de Hohenems". Uma parte significativa desta vila desaparece nestes anos de Guerra, e com isso a problemática de se dividir entre uma tradição de cultura, de afectividade, de sangue e de economia e uma nova ideologia institucional de um Estado que nem sequer é o dos austríacos. A confusão parece não desaparecer nos anos seguintes, sendo o ex-bairro judaico marginalizado com construções arquitectónicas duvidosas e descaracterizantes, chegando a sinagoga a ser convertida em quartel de bombeiros.



Antiga e Nova Sinagoga de Hohenems

A Hohenems de hoje é uma tentativa de reconciliação com o seu passado antes de 1939: o bairro judaico é ponto central do seu turismo e, em 1991, é fundado o Museu Judaico, que cumpre um importante papel na reunião de judeus de Hohenems espalhados pelo mundo assim como o recomeço da vida judaica pós-1945 e "disputas acerca da memória e tabus"



Museu Judaico de Hohenems

A visita ao Bairro Judaico de Hohenems é uma reflexão sobre a relação de uma comunidade com a sua história e das contradições entre uma cultura de hábitos quotidianos estabelecidos e uma cultura institucional autoritária de opressão com foi o Nacional-Socialismo de Hitler.




Bairro judaico



Jean Améry

Jean Améry foi um filósofo com ascendência em Hohenems, embora não tendo lá nascido foi ali que passou a sua infância, e dali era originária toda a sua família. Como muitos judeus de Hohenems tinha uma ascendência misturada, visto que a sua mãe era cristã e o seu pai judeu. O próprio Améry considerava-se austríaco e não judeu, daí não compreender a perseguição que lhe foi feita pelos alemães, obrigando-o a refugiar-se em países como a França ou a Bélgica. É neste último país que é preso e deportado para Auschwitz, sempre na dúvida para com ele próprio se seria judeu ou não. Esta tema assombrará a vida de Jean Améry, de uma educação cristã, com sangue judeu e nascido na Áustria, nunca compreenderá rigorosamente a que cultura pertencia. Esta falta de metafísica foi dura para Améry no campo de concentração, considerava-se um intelectual, e nessa condição tinha tudo a perder contra os seus colegas judeus que encontravam na crença a energia para sobreviver a Auschwitz. No entanto, numa realidade que segundo o próprio nada tinha de interpretativo, o intelectual perdia o seu modus vivendi em confronto com uma imagem quotidiana de horror. É esta experiência que usa para escrever a sua obra "At the mind's limits" onde afirma que as raízes da civilização Ocidental não estão assim tão firmes, apenas são vistas como garantidas. Na segurança do nosso mundo materialista actual não estamos conscientes da força que o Outro pode ser absoluto e pode usar o seu poder absoluto para infligir sofrimento. O Holocausto representa a essência e não um acidente do regime nazi, e a principal herança a ser estudada pelo humanismo. Se entendemos por dignidade o direito a viver com garantias em sociedade, então o III Reich é um exemplo de como essas garantias podem acabar. Salienta contudo, que os crimes do Holocausto não tem qualidade moral: quem o fez apenas o viu como uma objectivação da sua vontade, e não como um evento moral. Aqui Améry desmarca-se das posições habituais judaicas que clamam uma victimização assente na ideia de uma qualidade moral por parte do Outro. Améry crê que o futuro da população judaica deverá ser o desaparecimento da victimização que a torna em objecto, e deverá procurar o seu sujeito-próprio.

Tal como Primo Lévi defende que deve ser o homem a tomar conta da sua própria vida. Sobrevive ao Holocausto e suicida-se em 1978.

domingo, 16 de Agosto de 2009

Turismo Filosófico IV - Philosophenweg


Na cidade de culto dos românticos, Heidelberg, encontramos o Passeio dos Filósofos. Trata-se de uma inclinação inicial bastante acentuada que parte do Centro e continua por uma zona da parte topo, onde se avistam o verde e o rio em conjugação com as casas da Cidade. O passeio dos Filósofos é uma rua distinta, é um meio em si, não têm como finalidade o seu destino, como acontece em todas as ruas, é no seu próprio usufruir que está a sua funcionalidade.





Muito verde e calma, a rua começou como lugar de culto no séc. XIX, numa altura em que para qualquer especialização académica todos os estudantes tinham que passar necessáriamente pela filosofia. A única academia da toda a rua é o Instituto de Física, e no entanto aquele passeio foi frequentado por estudantes, todos "filósofos". Ilustres personagens como Hölderlin, Goethe, Brentano ou Hegel avistaram o rio e passeavam nas imediações do Castelo num passeio de reflexão com a natureza como exigia o pensamento romântico. Assim se fazia o passeio dos filósofos.


Hölderlin escreveu uma Ode a Heidelberg que tudo lembra as vistas do passeio dos filósofos, assim vai (tradução literal):

"Lange lieb ich dich schon, möchte dich, mir zur Lust,

Mutter nennen und dir schenken ein kunstlos Lied,

Du der Vaterlandsstädte

Ländlichschönste, so viel ich sah.


Wie der Vogel des Walds über die Gipfel fliegt,

Schwingt sich über den Strom, wo er vorbei dir glänzt

Leicht und kräftig die Brüke

Die von Wagen und Menschen tönt."

"Há muito tempo que te amo e quero para meu prazer,

Chamar-te mãe, e dar-te música,

Ó tu, das cidades de minha terra natal

Eu vejo o mais rústico e o mais belo.

Como o pássaro voa sobre a floresta,

Se ergue ao longo do rio que brilha a seus pés,

Em sua força leve

O som de carros e gente na ponte."

sábado, 15 de Agosto de 2009

Turismo Filosófico III - O berço da Globalizaçao Económica

Na Zelândia, a Holanda toca o Mar do Norte e revela um pouco da sua essência marítima na História. Local de passagem dos grandes navios dos Descobrimentos Holandeses, a Zelândia, fazendo parte das Sete Províncias Unidas iria revelar a sua importância na navegaçao holandesa, que se mantém até hoje, visto ter o terceiro maior porto do País. Antes do advento de Amsterdao, era Antuérpia o grande porto de referência da regiao, e o braço de mar que até ali chegava passava por estas costas, que protegiam e vigiavam as embarcaçoes.

A globalização holandesa atingiu características bem mais distintas que a portuguesa, com uma vocação mais pragmática e financeira com menos preocupações de colonização cultural. Os Descobrimentos portugueses tinham uma direcção essencialmente régia, isto no fundo traduzia-se num Estado plenamente controlador do empreendimento marítimo. Os interesses portugueses, se bem que também financeiros, tinham uma vocação religiosa mais vincada no seu fundo. Descobrir o reino cristão do Preste João, missionar os territórios, continuar a reconquista portuguesa do Algarve para Marrocos eram objectivos mais prioritários, mas nunca esquecendo também o Ouro e as Especiarias. O resultado à vista da época actual resulta numa colonização em que em alguns casos será confuso responder se terá sido democrática ou não. Assim, se em Goa o casamento misto era estimulado, em África, até ao Séc. XIX nunca houve uma colonização propriamente dita, mas apenas trocas mercantis e culturais realizadas em pequenas feitorias.


Cidade de Terneuzen: Bébé nasce de um ovo, que é também o mundo, e, indivíduo contempla o mar, sem braços para o conquistar.


Cisnes transportam um disco azul com várias línguas do mundo, e, barco dos Descobrimentos com rosto humano na sua frente

O caso holandês aos olhos de hoje seria visto quase como o funcionamento do sistema político Americano: pouca intervenção do Estado na economia, regulamentação do Estado da economia. País com experiência multicultural, a Holanda depressa entendeu as vantagens de um Estado Laico a comandar uma população com diferentes visões: católicos, protestantes ou judeus. As viagens marítimas foram financiadas essencialmente pelo pequena burguesia emergente naquele país, que criando um sistema de acções e de Sociedades Anónimas lançavam barcos à água com interesse óbvio de reaver o dinheiro investido. É talvez polémico dizer que a Holanda foi um país colonizador no sentido cultural, visto que o interesse estava nos dividendos económicos arrecadados das suas investidas. Numa sociedade com tantas culturas não pode haver uma verdadeira missão nacional, e por isso, os Holandeses descobriram no séc. XVI o que nós andamos a descobrir no séc. XXI: que o dinheiro é o denominador comum entre as culturas. Se os Africanos gostam de tecidos de cores garridas e nós gostamos de ouro, porque não fazer uma troca? Desinteressados por uma fusão cultural, que teria que ser necessariamente unidireccional, os Holandeses, permitiram outras culturas respirar. Como consequência para o seu Ego Nacional, a Holanda praticamente não deixou marcas onde esteve: Brasil, Angola ou Indonésia. A pequena Guiana e a zona do Transval na África do Sul (já em desaparecimento) são raras excepções.



Algo mais semelhante aos pontos de vista holandeses encontra-se na controvérsia entre D. Afonso de Albuquerque e D. Francisco de Almeida, tendo a Corte portuguesa na altura preferido as opções do primeiro. D. Afonso de Albuquerque defendia que o poder colonial português deveria assentar na conquista terrestre, na colonização própriamente dita, ao passo que D. Francisco de Almeida preferia um regime de talassocracia ao estilo do dos antigos Fenícios, o poder de Portugal deveria estar na sua armada fazendo apenas contactos mercantis controlando o comércio em todo o Oceano Índico. Na consequência da tomada de decisão de D. Afonso de Albuquerque conquistou-se Goa e Malaca (os planos de Albuquerque previam até a conquista de Meca), verificando-se uma alto nível de custos por ocupação terrestre e problemáticas envolvidas com as populações conquistadas.


Na Zelândia, Zeeland no original = terra do mar, sente-se a aproximação ao Oceano e ao desconhecido que representa, o sistema económico funcionou, o capitalismo adapta-se e ainda hoje é uma região com grandes transacções comerciais a nível mundial. Não há uma vocação universal metafísica, as crenças são relativas, e vivem-se em comunidades, o capital e o bom trato social são a chave das relações culturais.

domingo, 9 de Agosto de 2009

Turismo Filosófico II - O jardim da filosofia de Erasmo

Nos arredores de Bruxelas, no bairro de Anderlecht, encontramos a casa onde por um período curto de tempo viveu Erasmo de Roterdao. Em 1521, Erasmo permaneceu uma longa temporada em casa do seu amigo Pieter Wychman. É essa casa que pode ser visitada hoje em dia transformada em La Maisón d'Érasme/ErasmusHuis. Localiza-se na Rue du Chapitre, 31 e é visitável todos os dias, à excepçao das segundas-feiras, entre as 10h00 e as 17h00. A entrada é livre.


Em 2000, quatro artistas baseando-se no colóquio de Erasmo, "O Banquete Religioso", criaram um jardim filosófico nas traseiras da casa de modo a que se possa desfrutar de um ambiente de reflexao. A ideia é partir da diferenciaçao que os romanos faziam entre ócio e negócio/ otium e negotium. Negócio corresponde a trabalho, ócio corresponde à capacidade de nao se fazer nada mas ser livre para nos focarmos em nós próprios e nos outros. É este último conceito que o jardim pretende retratar.

"Ubi amici ubi opes" - "Onde há amigos, há saúde"

O jardim tem um série de lagoas com inscriçoes em latim. A água é limpa e fácilmente se cria um espelho de água. A idéia é criar um espelho do mundo com frases que o interpretem. A artista Marie-Jo Lafontaine baptizou este trabalho de "Lágrimas do Céu".



Observar o mundo: mais de 11.500 lentes oculares fazem este bloco no meio da natureza. Pretende descrever o período de quarentena em "o Banquete Religioso". O mundo oferece múltiplas interpretaçoes, no céu está o equilíbrio e a estabilidade, e por isso,esta obra nao tem tecto. Fortemente influenciada na corrente perspectivista do Renascimento.




Da natureza até à civilizaçao. Estes bancos de jardim crescem partindo da natureza, quer seja a raíz de uma árvore ou o caule das plantas.

sexta-feira, 7 de Agosto de 2009

Turismo Filosófico I - a casa onde nasceu Descartes

Afirmar que existe turismo filosófico parece paradoxal, afinal o que é fazer uma visita filosófica? Devido ao facto de nao se poder referir a uma viagem de observaçao vulgar, fazer turismo filosófico seria em latu sensu viajar pelas idéias. O turismo filosófico seria neste caso uma viagem sem se mover no espaco, pelo facto, de até dentro de nós mesmos podermos fazer uma visita de estudo filosófica num espaço mental. Em alternativa, a própria internet e os espaços virtuais de filosofia que existem, permitem rigorosamente um turismo filosófico.

Àparte disto, existe a curiosidade entre os admiradores de filosofia de conhecer as personalidades filosóficas, e nao só as filosofias em si. Acontece em todas as áreas: é com toda a naturalidade que um político lê uma biografia de Alexis de Toqueville, um biólogo uma biografia de Lamarck ou um físico uma biografia de Max Planck.

Assim sendo, quero referir-me neste post acerca do turismo relacionado com as personalidades filosóficas. Nao pretende ser um fait-diver das mesmas, mas tem o intuito de como qualquer biografia, descobrir o que levou a personagem em causa a tornar-se no que se tornou.

Entre Poitiers e Tours, nos arredores de Châtelleraut, encontra-se a pequena aldeia onde a 31 de Março de 1596 nasceu Descartes, entao designada "La Haye". É ali mesmo que encontramos a Maison de Descartes. Trata-se da casa onde nasceu e viveu até aos dez anos de idade o famoso filósofo francês. É um pensador demasiado grande para a dimensao que a aldeia tem, mas seja como for, o trabalho está bem feito. Um gesto de menos gosto foi terem mudado o nome da aldeia de "La Haye" para "Descartes" (é essa mesma a sua designaçao oficial). A casa está bem conservada, encontra-se aberta todos os dias a partir das 14h00 e cada entrada-adulto custa 4,50 euros. O seu interior revela-se contudo bem diferente daquilo que um turista curioso poderia esperar: nao é propriamente um cenário do que seria a casa onde o filosofo nasceu, mas antes uma remodelaçao total preenchida com escritos em redor da filosofia de Descartes. Desta forma, torna-se mais um Museu da sua Filosofia, do que própriamente de Descartes-pessoa. Para quem já leu Descartes nao encontra nada de novo, para quem nao domina francês a visita é quase dada por perdida e para quem acha difícil ler escritos extensos e com a profundidade própria da filosofia em espaços públicos o resultado final da visita é quase nulo. A divisao da casa está no entanto, criativamente bem elaborada: no r/c encontramos descriçoes de como era o mundo no tempo de Descartes, e no primeiro andar encontramos escritos relativos à sua filosofia própriamente dita. A idéia é criar um primeiro andar dedicado ao corpo (a res extensa) e um segundo à alma (a res cogitans). Existe também uma cave com os filósofos mais conhecidos. Aqui, aparecem os comentários destes filósofos acerca da obra de Descartes. No caso de serem anteriores, aparecem o comentários de Descartes sobre estes filósofos.

Vista a Maison de Descartes, e centrando a visita mais em Descartes-pessoa, vale a pena a vista ao centro da aldeia, onde figura uma estátua ao filosófo. Na igreja local pode-se visitar a pia baptismal onde este foi baptizado segundo inscriçao que acima apresento. O quotidiano das pessoas da aldeia parece fazer tudo para que Descartes entre nas sua vidas (algumas das nossas localidades precisavam desta mentalidade) e assim, nos panéis turísticos espalhados pelo centro visualiza-se comentários do filósofo. Assim, o painel turístico da Igreja tem um comentário de Descartes à religiao, e na rua das lojas, um comentário acerca do comércio.

domingo, 26 de Julho de 2009

Frase





«No mundo da actualidade, só os efeitos são relevantes»

Peter Sloterdijk

«A loucura de Deus»
Relógio d'água, 2009
pág. 122

sábado, 18 de Julho de 2009

California Dreamin'

California Dreamin'

Ano: 2007

Realizador: Cristian Nemescu

Em 1999, durante o conflito no Kosovo, um contigente da NATO transporta um sistema de comunicações urgente para a guerra em curso por via ferroviária atravessando as paisagens mais desérticas da Roménia, que por razões geográficas se viu indirectamente envolvida no confilto. Num comboio com um contigente americano de Marines vêm-se obrigados a parar na pequena estação de Capalnita, aldeia interiorizada e esquecida em território romeno. Na contigência de situação de Guerra as formalidades burocráticas parecem ser o menos importante, não é contudo o que pensa o chefe desta estação, Doiaru, um velho romeno para quem as leis alfandegárias devem ser cumpridas a todo o custo, e sem qualquer excepção. Um grupo de dezenas de militares americanos, fortemente armados encontram-se na obrigação de ficarem retidos nesta estação à mercê de um só homem, que tem o poder de decisão sobre os movimentos ferroviários ali efectuados. Impossibilitados de realizar qualquer tipo de coacção, embora tendo todos os meios para isso, os Marines cumprem custosamente os seus principios de Diplomacia num país neutro na Guerra, a que só podem reagir a ataques mas nunca iniciar um ataque. Ataque esse que acaba por nunca acontecer. Entretanto, espalha-se a notícia na aldeia que como é natural, abala o morno quotidiano a que estão habituados. Os locais fazem então tudo para que a sua aldeia seja notada por este povo vindo de uma realidade tão diferente e avançada. Improvisam a festa anual da aldeia num só dia, embora esta festa anual tenha na verdade ocorrido no mês anterior, exibem os seus monumentos e belezas a fim de cativarem os americanos para que gostem deles. As adolescentes cristãs entram em histeria perante tal invasão masculina e vão à procura do seu California Dreamin' tal como ouvem na música das suas aparelhagens e nas televisões de suas casas.

California dreamin' é um filme sobre o choque cultural entre mundos muito diferentes: a pacatez da ruralidade com a mentalidade globalizante do pensamento americano; a pobreza e a vida simples com o pensamento individualista e ambicioso; a vida informal e desinteressada com o profissionalismo e a ética do trabalho; o pudor imaculado cristão com as hormonas masculinas de soldados de guerra solitários de cultura hedonista; o complexo de inferioridade com o complexo de superioridade. Numa lógica de "a caneta é mais forte do que a espada", um simples chefe de estação sem estudos e que mal fala inglês consegue prevalecer a sua vontade de honrar a lei (mesmo contra ordens superiores) contra a força das armas das tropas que ali permanecerão estacionadas 5 dias e que abalarão a vida social e política da aldeia. Um bom documento sobre a cultura romena que qualquer fã de «Gato Preto, Gato Branco» não deve perder. É também o documento final deste precoce realizador, Cristian Nemescu, que faleceu antes de concluir a pós-produção deste filme, com apenas 27 anos.

quarta-feira, 15 de Julho de 2009

Cornos

Normalmente há razões razoáveis para se despedir uma pessoa. O trabalhador pode estar a ser pouco produtivo, chegar tarde, não cumprir horários ou simplesmente não realizar a tarefa que lhe está proposta no contrato de trabalho. Em Portugal uma vez mais, olhamos para o acessório das coisas e nunca para o essencial.


Despedir alguém pela razão de que fez cornos e não por não ter cumprido bem o seu dever é uma atitude de incongruência e falta de sentido para o que é o essencial de uma missão. Não deveria Pinho ter sido despedido por fazer mal a sua tarefa de ministro? Ou de ter feito alguma corrupção? Não! Despede-se porque foi mal-educado. Ora esta tarefa não deveria ter sido imbuída ao Presidente da Assembleia da República que deveria ter chamado a atenção para aquele gesto? Ou, não deveria Pinho ter falado daquele assunto com o alvo dos seus cornos, fora do Plenário e com o bom-senso de pedir desculpa?

Não... em Portugal censura-se as pessoas pelo seu formalismo e pelas suas aparências. Vejamos. Um profissional altamente produtivo pode ser despedido por se vestir mal. Um profissional que cumpre melhor os seus objectivos que os seus colegas pode ser despedido porque chega todos os dias ligeiramente atrasado, ou porque gastou uns minutos disponíveis a telefonar a uma amigo,ou mesmo porque vai exageradamente à casa de banho.

Se calhar exagero, não será só de Portugal, lembro que no Verão quente de 98 um Presidente americano esteve num processo de impeachement só porque fumou um charuto vindo de um local de pecado...

Mais uma vez não se toca no essencial. Que o ministro se tenha ido embora talvez sim, mas não por ter feito cornos... e que tal por corrupção ou pelo estado em que deixa as nossas economias?

segunda-feira, 29 de Junho de 2009

A desconfiança à portuguesa segundo Miguel Esteves Cardoso


Há neste mundo três espécies de desconfiança: a inglesa, a francesa e a portuguesa.

Desconfiar à inglesa é desconfiar com vontade de vir a confiar. É a versão do «Deus queira que me engane» que os portugueses não conhecem: a sincera. Os ingleses desconfiam de tudo o que não lhes é familiar. Mas como não gostam de desconfiar acabam por familliarizar-se. E passam a confiar. Até ao dia em que alguém desmerecer essa confiança: aí caem em cima dele sem misericórdia, porque foram traídos.

Os franceses desconfiam sobretudo do familiar. Não é fácil: é uma arte. Lidam bem com o exótico: conseguem gostar das coisas sem confiar nelas. Os franceses não descansam enquanto não recebm a confirmação das suas desconfianças. Ao contrário dos ingleses, que têm um desprezo civilizado pelos instintos, os franceses anseiam por descobrir que são precisamente os instintos deles que não são parvos e que, dalguma forma, conseguiram resistir ao relaxamento hipnótico da civilização.

Veja-se os estilos policiais ingleses e frances. Nos ingleses parecem todos culpados mas são todos inocentes, excepto um, que é tremendamente mau. Nos franceses parecem todos inocentes mas são todos culpados.

Desconfiar à portuguesa é desconfiar com vontade de poder continuar a desconfiar. enquanto que os ingleses e franceses ficam contentes quando acontece alguma coisa que invalide ou confirme a desconfiança, o português não quer que nada se meta entre ele e a desconfiança dele. Se a realidade interfere, desmentindo ou confirmando a desconfiança, ele fica chateado. É-lhe indiferente se a pessoa afinal é boa ou má. O que ele não perdoa é que lhe tenham matado aquele sentimento de desconfiança que tanto trabalho lhe deu a criar e que tanto prazer inconfessado lhe deu. No plano do amor é como achar mais graça ao amar e ao odiar do que propriamente às pessoas que se ama ou odeia. As pessoas acabam por ser secundárias. E substituíveis. "O que interessa são os sentimentos" é a grande frase portuguesa. Perguntam-nos porque é que amamos o José e a Josefa e maça-nos responder. Dá-nos trabalho pensar em razões. Achamos simplista que se espere que uma lista de qualidade humanas explique o amor. (...) É um estraga-prazeres. E o prazer dos portugueses não é saber : é desconfiar, permanentemente. sabe-nos bem porque o protagonista principal é sempre o mais correcto: nós. (...) A desconfiança portuguesa é uma fuga a qualquer tipo de conclusão: boa ou má. A desconfiança em si é que é boa.


retirado do suplemento "nós" do jornal i de Sábado, 27 de Junho de 2009