Segunda-feira, 29 de Junho de 2009

A desconfiança à portuguesa segundo Miguel Esteves Cardoso


Há neste mundo três espécies de desconfiança: a inglesa, a francesa e a portuguesa.

Desconfiar à inglesa é desconfiar com vontade de vir a confiar. É a versão do «Deus queira que me engane» que os portugueses não conhecem: a sincera. Os ingleses desconfiam de tudo o que não lhes é familiar. Mas como não gostam de desconfiar acabam por familliarizar-se. E passam a confiar. Até ao dia em que alguém desmerecer essa confiança: aí caem em cima dele sem misericórdia, porque foram traídos.

Os franceses desconfiam sobretudo do familiar. Não é fácil: é uma arte. Lidam bem com o exótico: conseguem gostar das coisas sem confiar nelas. Os franceses não descansam enquanto não recebm a confirmação das suas desconfianças. Ao contrário dos ingleses, que têm um desprezo civilizado pelos instintos, os franceses anseiam por descobrir que são precisamente os instintos deles que não são parvos e que, dalguma forma, conseguiram resistir ao relaxamento hipnótico da civilização.

Veja-se os estilos policiais ingleses e frances. Nos ingleses parecem todos culpados mas são todos inocentes, excepto um, que é tremendamente mau. Nos franceses parecem todos inocentes mas são todos culpados.

Desconfiar à portuguesa é desconfiar com vontade de poder continuar a desconfiar. enquanto que os ingleses e franceses ficam contentes quando acontece alguma coisa que invalide ou confirme a desconfiança, o português não quer que nada se meta entre ele e a desconfiança dele. Se a realidade interfere, desmentindo ou confirmando a desconfiança, ele fica chateado. É-lhe indiferente se a pessoa afinal é boa ou má. O que ele não perdoa é que lhe tenham matado aquele sentimento de desconfiança que tanto trabalho lhe deu a criar e que tanto prazer inconfessado lhe deu. No plano do amor é como achar mais graça ao amar e ao odiar do que propriamente às pessoas que se ama ou odeia. As pessoas acabam por ser secundárias. E substituíveis. "O que interessa são os sentimentos" é a grande frase portuguesa. Perguntam-nos porque é que amamos o José e a Josefa e maça-nos responder. Dá-nos trabalho pensar em razões. Achamos simplista que se espere que uma lista de qualidade humanas explique o amor. (...) É um estraga-prazeres. E o prazer dos portugueses não é saber : é desconfiar, permanentemente. sabe-nos bem porque o protagonista principal é sempre o mais correcto: nós. (...) A desconfiança portuguesa é uma fuga a qualquer tipo de conclusão: boa ou má. A desconfiança em si é que é boa.


retirado do suplemento "nós" do jornal i de Sábado, 27 de Junho de 2009

Quinta-feira, 4 de Junho de 2009

A abstenção III - eleitores à força

Continuando o meu post anterior, deparamos com um curioso despacho de 2006 onde um cidadão que se queira inscrever num estabelecimento de ensino deve apresentar o seu cartão de eleitor obrigatoriamente.

Se o post anterior admitiu que a abstenção pode ser uma arma de protesto, que será feito então do cidadão que quer protestar e simultaneamente formar-se numa instituição de ensino? Tornam-se duas atitudes contraditórias...



Domingo, 31 de Maio de 2009

A abstenção II - sondagem


A propósito do acontecimento do próximo domingo, as eleições europeias, a próxima sondagem refere-se a esse monstro habitual destes eventos que é a abstenção. É o abstencionismo um protesto ou um desinteresse?


"Quem não vota tem direito a protestar posteriormente contra políticas governativas?"
Votos até ao final de Junho
Resultados da última Sondagem:
É o romantismo vital?
Sim: 19 votos (70%)
Não: 5 votos (18%)
Talvez: 2 votos (7%)
Não Sei: 1 voto (3%)

Segunda-feira, 4 de Maio de 2009

A abstenção

A pouco mais de um mês das eleições para o Parlamento Europeu foi publicada uma sondagem onde mais uma vez ficou demonstrada a falta de interesse dos cidadãos pelas ditas eleições. De facto, entre todas as eleições, a eleição para o Parlamento Europeu é aquela onde o valor da abstenção é o mais elevado, não sendo este facto especifico a Portugal, mas uma constante em todos os países europeus. Quais as razões para um tal desinteresse?



A principal razão que justifica esta falta de interesse parece-me ser o facto de a maioria dos cidadãos europeus ignorarem pura e simplesmente a verdadeira natureza do seu voto. Mais precisamente, eles não sabem no que estão a votar. Certo, sabem que estão a eleger aqueles que os vão representar a eles e aos seus países no interior do organismo europeu que simboliza em principio a vontade do povo europeu (se tal coisa existe). Contudo não compreendem o que os seus representantes vão fazer e isto porque os organismos da União Europeia e o seu funcionamento constituem hoje um dos maiores mistérios que existe no mundo politico. Qual é a relação entre essa ignorância e a abstenção? Por que razão o desconhecimento da natureza de um organismo politico implica necessariamente o aumentar da distância que separa os europeus do organismo politico que os representa?

Se a abstenção é assim tão elevada aquando das eleições europeias, tal deve-se ao facto de ainda sermos modernos, ou seja, ao facto de as nossas representações sobre aquilo que é o poder politico serem as representações que herdamos do Estado Moderno. As teorias politicas modernas têm em comum o facto de colocarem a racionalidade no centro das suas preocupações. Foi através da razão que não apenas o Estado como igualmente o individuo foram conquistando a sua autonomia em relação a forças que antes os transcendiam. Este percurso teve o seu inicio com Maquiavel, mas encontrou em Kant a sua definição mais conseguida quando este afirma que as Luzes são a maioridade, ou seja a possibilidade em apenas seguirmos as regras às quais podemos dar o nosso consentimento livre.



A noção de consentimento livre é essencial ao Estado Moderno e explica porque razão a democracia encontrou no Estado-Nação o quadro ideal para o seu desenvolvimento (não me esqueço que foi igualmente no Estado-Nação que se desenvolveram tanto o fascismo como o comunismo, mas não abordarei esta questão para não tornar este texto mais pesado ao leitor). Este consentimento livre e racional supunha a existência de um espaço publico, mais precisamente o espaço nacional, onde os cidadãos tomassem conhecimento das leis, onde pudessem discuti-las e assim dar ou não o seu acordo através de representantes eleitos cuja autoridade era legitimada não a partir de forças obscuras, mas através da própria população.

Ao consentimento livre e racional a modernidade adicionou a representação, que a distingue da democracia directa das cidades gregas. Todos conhecem a definição de Aristóteles do homem como animal politico, mas poucos pensam o que significa aqui o termo "politico". Se o homem se caracteriza como um animal politico é porque é na cidade (polis) que ele pode realizar todas as suas potencialidades, num quadro social relativamente pequeno onde não apenas o debate como uma certa afinidade afectiva existia, tornando assim possível a democracia directa. Ora no quadro nacional tal democracia directa era impossível. A extensão do território e o numero de cidadãos exigia um outro modelo que, mantendo o espaço de debate (com a imprensa) e a afinidade afectiva (com o imaginário nacional), permitisse igualmente ao cidadão de sentir que as leis sob as quais ele conduz a sua vida são as leis que ele se deu a ele mesmo. Foi na representação que o Estado Moderno conseguiu preservar as virtudes politicas atribuídas à democracia grega.

Ora, o que assistimos com a União Europeia é que o consentimento é hoje colocado em causa pois não estão criadas as condições para que ele exista. Não existe espaço publico europeu e quando podíamos ter começado a criar um, com o referendum sobre o Tratado Instituindo uma Constituição para a Europa, a União Europeia decidiu que cabia a cada Estado marcar a data que mais lhe convinha para a organização do dito referendum. Resultado : em vez de termos tido um referendum no mesmo dia em todos os países europeus, criando assim um verdadeiro debate sobre a Europa, tivemos referenda em dias diferentes, condicionando assim cada resultado às politicas internas.

A falta de espaço publico de debate implica necessariamente que os temas europeus não possam ser debatidos racionalmente. Pelo contrario, eles encontram-se envolvidos numa espessa obscuridade da qual, muito naturalmente, apenas emergem imagens negativas. Mais do que isso, tal obscuridade dos temas europeus faz com que os próprios cidadãos sintam que o centro de decisões lhes transcende, que eles não têm nenhuma influência sobre ele. Não é este sentido pejorativo que o termo "Bruxelas" tomou nos últimos anos?



Assim sendo, a abstenção nas eleições europeias são a consequência natural da falta de condições existentes para que os cidadãos europeus possam participar no processo de construção europeia. Muitos criticam esta construção politica europeia pela sua falta de democracia e esta critica não deve ser posta de parte. Muito pelo contrario. A partir do momento em que as Comunidades Europeias surgiram, elas fizeram-no com o propósito de ultrapassar o Estado-Nação, culpado por ter exacerbado as rivalidades nacionais que conduziram a Europa, e com ela o mundo, a duas guerras mundiais. Aquilo que parece que os pais fundadores da União Europeia não pensaram é que esse colocar em causa do Estado-Nação teria de ser acompanhado, necessariamente, por um repensar da democracia pois ela deveria ser, como foi, afectada. Ao negligenciar a questão da participação dos europeus na construção da União Europeia, ao não criar as condições para que uma tal participação aconteça, a União Europeia corre o risco de fazer regressar os europeus ao estado de minoridade. A abstenção é um sinal dessa minoridade.

Sexta-feira, 17 de Abril de 2009

Porque no Capitalismo tudo é capitalizável


"Se existe tanta crise, é porque deve ser um bom negócio"
Jô Soares, Humorista e Apresentador

Sexta-feira, 10 de Abril de 2009

Mórbido




"Cangalheiro é um bom ofício, Mário. Aprende-se Filosofia"
O carteiro de Pablo Neruda, Antonio Skármeta

Sábado, 28 de Março de 2009

É o romantismo vital?

É o romantismo uma característica natural do ser humano ou uma tendência cultural? Do romântico séc. XIX até ao actual séc. XXI, pretende-se saber na próxima sondagem qual a percurso natural do Homem de afectos e sonhador ao Homem da razão e da planificação.
Partindo de um artigo publicado no La Vanguardia, a sondagem para o mês de Abril é esta: "é o romantismo vital?"


" O antigo é melhor. Olhem à vossa volta se não acreditarem em mim; o que vêem é o século XXI: fato-de-treino nas ruas, música vazia a tocar em dispositivos computorizados, não-pensamento catódico, automóveis grotescos e incomodativos, ausência de romantismo vital, desaparecimento das boas maneiras, neutralidade existencial, vulgaridade capitalista, arte insípida não-figurativa, cultura descartável, e glorificação do prestamista. É este o nosso século? É isto o melhor que pode dar a humanidade?

Neste contexto, o revivalismo torna-se lícito e nostalgia inevitável. Esta tem muita má reputação, mas não a merece. Aqueles que olham para trás de forma patológica costumam ser mal interpretados: não se trata aqui de apreciar as coisas do passado porque são «antigas». O que se passa é que são melhores. Como declarou o artista Billy Childish à revista «The Chap»: «Não escolho a opção antiquada por ser a mais velha, mas antes observo as duas (a nova e a velha) e tomo uma decisão baseada em qual é de melhor qualidade». «Tweed» contra Zara, vinil contra Mp3, «cha-cha-cha» contra «house», Ealing contra Hollywood actual: ganha o primeiro, admitam-no. Talvez as casas de banho fossem piores, fazia mais frio e as pessoas morriam mais cedo. Valia a pena. "



Kiko Amat no jornal catalão "La Vanguardia" - 14 de Janeiro de 2009

Sexta-feira, 20 de Março de 2009

A alegoria da Caverna segundo Josef Fritzl




Foi ontem condenado na Áustria, a pena de prisão perpétua, Josef Fritzl, enquanto o resto do mundo comemorava solenemente o Dia do Pai.


A história deste pai pouco exemplar é assunto algo complexo para ser desenvolvido sobretudo pela quase impossibilidade de não nos envolvermos do ponto de vista emocional com o ocorrido. É um caso que provoca um dose de choque bem forte, daí que uma análise mais fria do caso torna-se numa tarefa pouco usual, sob pena de o autor ser chamado de frio. Interessa-me contudo, fazer uma análise do que este episódio pode ter de relevante para o mundo do conhecimento, nomeadamente quanto questões filosóficas como a distinção realidade-aparência ou condicionalismo-liberdade. É uma história com bastante "riqueza" para estes temas.

Sabemos que há imensas hipóteses colocadas sobre a natureza dos seres humanos e que a ética nunca permitirá testar, pois tal implicaria, isolar esses seres humanos, colocá-los à prova de testes demasiado duros, e isso levaria a uma conclusão a custo de meios pouco dignos. No entanto, neste caso específico, tal aconteceu... Que fazer com a evidência do que já ocorreu? Negá-lo parece ser contraproducente.


Que dizer de um individuo que viveu numa cave durante a sua vida de 18 anos, com apenas alguns metros quadrados para andar, sem saber o que é correr ou saltar, andar de bicicleta ou mover-se na água? E que pensará este ser quando imagens destas lhe surgem por uma televisão que lhe vai mostrando um mundo mais belo e real do que aquele que conhece? Não tentará ele fugir da cave? Parece que estou a transcrever a Alegoria da Caverna de Platão, que em tempos me diziam "isso não pode ser comprovado, porque ninguém está preso numa caverna nem nunca estará, é um caso impossível de se realizar". Pois bem realizou-se... E esteve a realizar-se durante mais de duas décadas. Desde 1984 (o ano que George Orwell dizia que íamos estar a ser constantemente vigiados) até há quase um ano atrás realizou-se.





Por enquanto ainda é bastante ambíguo saber se as crianças em questão que nasceram naquele lugar teriam alguma consciência de que existia um mundo real. Para isto deve ter sido fundamental o que a mãe lhes foi contando, no entanto como sabemos, ainda não houve descrições sobre este assunto. Mas a saberem estas crianças que o seu mundo não era real, existindo outro mais perfeito, não poderá ser visto como comparação a uma espécie de crença religiosa? Da mesma forma que na nossa sociedade, acreditamos num mundo mais perfeito pós-morte, e bebemos informações em padres e teólogos, não seriam aquelas crianças também crentes naquele lugar? O que pretendo aqui analisar é a possibilidade as crianças terem desenvolvido uma necessidade de crença, substituindo o céu pela realidade cá em cima e santos e profetas, por Josef Fritzl e a mãe. A televisão funcionaria como uma espécie de lugar de culto, onde o visionamento corresponderia aos estados de contacto, de ligação religiosa tal como acontece nas igrejas.

Da mesma forma, ao acreditar noutro mundo mais perfeito, qual seria a relação das crianças com a noção de liberdade? Quereriam liberdade? Achariam que deviam pagar nesta vida (naquela vida de cave) para depois aceder ao mundo superior? Acho sinceramente que um bom estudo psicológico destas crianças poderia fornecer dados muito interessantes sobre estas questões relacionadas com a natureza humana.

Continuando a explorar o platonismo, como será a visão destas crianças relativamente à multiplicidade de objectos? Tendo concebido durante muitos anos um modelo perfeito, um arquétipo, de um sofá, de um frigorífico, de uma televisão (devido ao facto de só existirem em número singular na cave) como reagirão à existência de outros sofás, outros frigoríficos e outras televisões? Terão a tendência para negar os objectivos múltiplos cá em cima, desejando por razões históricas só reconhecer verdade nos objectos primeiros que conheceram? Psicologicamente, a capacidade de desenvolver um afectividade em relação a este mundo será difícil para estas crianças, tal como na Caverna de Platão, o prisioneiro tem uma tendência para regressar à caverna, a realidade do mundo é demasiada para ele.

Josef Fritzl inverteu o jogo: quis criar um mundo perfeito numa caverna, com a esposa que queria e com o agregado familiar que desejava. Se para Platão, a tendência filosófica era para irmos descobrindo o mundo, saindo da escuridão, das sombras e da ignorância, Fritzl planeou uma caverna oferecendo esse "mundo perfeito" (sem drogas ou bebidas) à sua filha. O caso acabou mal... No mundo não vivem muito tempo os ditadores e suas ideologias, criam ilusões para esconder a realidade, mas as ilusões acabam sempre por acabar. Este "sonho" demorou 24 anos...

Sexta-feira, 6 de Março de 2009

Confusões Mediáticas


Querer dizer uma verdade em jornalismo é um bem aceitável considerado por todos os consumidores como essência da própria função desta profissão. Pior no jornalismo é querer ser-se verdadeiro, ampliando a veracidade da notícia e estimulando o próprio acontecimento sem a mínima preocupação do jornalista. Pior ainda no jornalismo é a falta de consciência de antecipação do que certas verdades reveladas podem potenciar em níveis reais.


No dia 23 de Fevereiro último, na capa do Correio da Manhã vigorava a manchete "40 % dos homicidas são estrangeiros", o título-choque que faz vender jornais em época de descida de circulação dos mesmos, em crise da imprensa, produz uma atitude de egoísmo, da própria editora, que quer vender, e que confronta com a utilidade pedagógica que o jornalismo deveria ter. O facto de haver homicídios é preocupante (disto ninguém duvida), o facto de serem estrangeiros também o é (não estamos a ter muito sucesso nas políticas de integração). Mas escrever uma verdade destas é estimular ainda mais ódio em relação a certos grupos de pessoas que escolheram integrar o nosso país na procura de melhores condições de vida.


Abrindo a notícia e lendo com mais atenção, nota-se que a frase não é de todo rigorosa: é baseada numa amostra de 132 casos. Lendo com mais atenção notamos que a manchete não é rigorosa: "40% dos homicidas são (2009) estrangeiros", na verdade reporta-se a um estudo da PJ decorrido entre 2000 e 2004, é claro que isto só surge no final em letras pequeninas. Quem lê uma notícia inteira em Portugal? As gordas são bem mais de fácil leitura e, havendo tal disparidade entre título e conteúdo o que sobressai para o cidadão que passa no quiosque é que os imigrantes andam muito mal comportados por cá. Outra falha grande é o facto de os números se referirem à PJ de Lisboa que compreende toda a zona entre as Caldas da Rainha e Évora (curiosamente zona onde por acaso até existem mais imigrantes...), esta é uma informação que que mal figura em cabeçalho, e mais uma vez o cidadão fica a generalizar para todo o país...


Mas a consequência maior deste tipo de manchetes é o erro de ampliação. Assim vejamos: Segundo o Serviço de Estrangeiros e Fronteiras, em 2004 (último ano a que se refere o estudo), havia 263 322 estrangeiros em Portugal. Portugal tem uma média de 215 homicídios por ano, 40% dá 86 homicídios praticados por estrangeiros. O problema deste tipo de publicações é o seguinte: se a notícia é que 86 estrangeiros mataram em Portugal em 2004, conseguirão os restantes 263 236 continuar a ser bem vistos pelos portugueses? A resposta é não. Na mentalidade do cidadão que acaba de ler uma notícia destas a frase que sai é "são todos uns assassinos". O números que apresento desmentem esta nova realidade criada no senso comum português, que é falsa e perigosa.

Mas este problema dos Media não é novo, e é uma constante. Num país onde se escrevermos estatísticas + homicídios no Google nos aparece na mesma página a notícia: "PUBLICO.PT - Portugal com maior taxa de homicídio da Europa Ocidental" e a notícia " Lisboa é a segunda capital europeia com menor taxa de homicídios ... " nada é de estranhar...

Terça-feira, 24 de Fevereiro de 2009

Queima-livros

(Imagem do filme Fahrenheit 451)

Maria Luísa Alvim realizou em 1992, no âmbito da disciplina Bibliografia e Metodologia de Investigação em Bibliotecas e Arquivos, na Universidade do Porto, uma extensíssima lista de livros censurados entre 1926 e 1974.


A censura dividia os livros então em 9 partes:

1. Filosofia

2. Religião, Teologia

3. Ciência Sociais

4. o quarto capítulo encontra-se omitido

5. Matemática, Ciências Naturais

6. Ciências Aplicadas, Medicina, Tecnologia

7. Arte, Espectáculo, Desporto

8. Linguística, Literatura

9. Geografia, Biografia, História

Na área da Filosofia eram as seguintes obras riscadas a lápis azul:

IUDIN, P.
Dicionário filosófico / P. Iudin, M. V. Rosental ;
trad. de Luís Marques da Silva. - Lisboa : Estampa,
1972. - 5 vol. ; 19 cm. - (Biblioteca Estampa)

BURNIER, Antoine-Michel
Os Existencialistas e a política / Antoine-Michel
Burnier ; trad. de Jorge Alvarez. - [S.l.] : Ulisseia,
[1963?]. - 251 p. ; 14 cm. - (Ulisseia ; 5)

ANTUNES, João
A Hipnologia transcendental / João Antunes ; introd.
de Raúl de Oliveira Leal. - Lisboa : Liv. Clássica
Editora, 1913. - 220 p. ; 19 cm. - (Psicologia
Experimental ; 3)

ANTUNES, João
O Hipnotismo e a sugestão : a hipnologia artificial /
João Antunes. - Lisboa : Liv. Clássica Editora, 1912.
- 96 p. ; 19 cm. - (Psicologia Experimental ; 2)

LEITAO, António Gonçalves
O Hipnotismo em 30 lições / António Gonçalves Leitão.
- 2a¯ ed. - [S.l. : s.n.], 1917 (Lisboa : Centro
Typographico Colonial). - 195 p. ; 13 cm

WALLON, Henri
O Racionalismo moderno e as ciências biológicas e
psicológicas / Henri Wallon, Georges Teissier ;
introdução de Paul Langevin ; notas de Jorge de Macedo
; trad. de Carlos Carvalho. - Lisboa : Edições
Universais, 1946. - 63, [5] p. ; 20 cm

MARX, Karl
As Filosofias da natureza em Demócrito e Epicuro /
Karl Marx ; trad. de Conceição Jardim , Eduardo Lúcio
Nogueira. - Lisboa : Presença, [1972?]. - 226 p. ; 15
cm. - (Coleção Clássicos. Filosofia ; 35)

NIETZSCHE, Friedrich
O Anti-Cristo / Friedrich Nietzsche ; trad. de Carlos
Grifo. - Lisboa : Presença, 1973. - 136 p. ; 18 cm. -
(Colecção Clássicos ; 26)

Em outras áreas encontramos igualmente censura, fiz aqui uma selecção de algumas obras de relevância:

- Rosa Luxemburgo («A crise da Social Democracia»; «greve de massas, partido e sindicatos»; «reforma ou revolução») ;

- Jacques Ranciére («sobre a teoria da ideologia: a politica de Althussier»);

- Karl Marx («A ideologia alemã»; «trabalho assalariado e capital»; «A guerra civil em França»; «Crítica do programa de Gotha»; «O capital»; «Contribuição para a crítica da economia política»; «Textos Filosóficos»; «O manifesto do partido comunista»; «A luta de classes em França 1848-1850»; «O 18 de Brumário de Luís Bonaparte»);

- Leon Trotsky («O anti-kautsky»; «A natureza do estado soviético»; «Como fizémos a revolução»);

- Raul Proença («A ditadura militar: história e análise de um crime»);

- Lévy-Bruhl («O ideal republicano»);

- Jean-Paul Sartre («A revolta de Maio em França»; «Mortos sem sepultura»; «Situações III»; «As mãos sujas»);

- Petr Kropotkine («A grande revolução», «A conquista do pão»);

- Lenine («Um passo em frente, dois passos atrás»; «A questão dos sindicatos»; «As questões nacional e colonial»; «Materialismo e empiriocriticismo»; «Que fazer?»; «Sobre a luta contra o revisionismo»; «Trabalho político de massas»; «O estado e a revolução»);

- Proudhon («O que é a propriedade»);

- Louis Althusser («Lenine e a Filosofia»);

- Friedrich Engels («A questão do alojamento»; «Sobre a literatura e a arte»;«Sobre o materialismo histórico»; «Do socialismo utópico ao socialismo científico»; «Os bakuninistas em acção:o levantamento em Espanha no Verão de 1873» );

- Bento de Jesus Caraça («A cultura integral do individuo: um problema do nosso tempo»);

- Henri Lefebvre («O pensamento de Lenine: temas e problemas»);

- VÁRIOS AUTORES, incluindo Karl Marx («Sobre a emancipação da mulher»);

- António Sérgio («Educação cívica»; «História de Portugal»);

- Wilhelm Reich («O combate sexual da juventude»);

- Egas Moniz («A vida sexual: fisiologia e patologia»);

- Norman Mailer («Os exércitos da noite»; «Um sonho americano: romance»);

- Billy WilderIrma a carinhosa»);

- D.H. Lawrence («O amante da Lady Chatterly»);

- John Updike («Corre coelho»);

- Charles Baudelaire («Os paraísos artificiais»);

- André Malraux («A condição humana»);

- Gustave FlaubertMadame Bovary»);

- Marquês de Sade («A filosofia da alcova»);

- Victor Hugo («Gauvain e Cimourdain»);

- Alberto Moravia («Agostinho»; «A romana»);

- Natália Correia («Comunicação: em que se dá notícia de uma cidade vulgarmente chamada lusitânea»; « O encoberto - teatro»);

- José Falcão («A cartilha do povo: parte I para a gente do campo»);

- Urbano Tavares Rodrigues («Uma noite e nunca»;«A vida romanesca de Teixeira Gomes»);

- Jorge Amado («Capitães de Areia»; «ABC de Castro Alves»; «Jubiabá: romance»);

- Bocage («Cartas de Olinda e Alzira»);

- José Afonso («Cantares»; «Cantares de novo e poema»);

- Manuel Alegre («O canto e as armas»; «A praça da canção»);

- Mário Cesarinny («Um auto para Jerusalém»);

- Virgílio Ferreira («O caminho fica longe»; «André Malraux»);

- Miguel Torga («Montanha: Contos»);

- Maximo Górki («Confissão»);

- Nikolai Gogol («O inspector»)


A ideologia por detrás da censura tentou banir os livros mais obviamente anti-Estado Novo. Neste caso estaria nos tops os livros comunistas e aqueles que atentassem contra os bons costumes religioso-sociais. Livros sobre a nova condição da mulher, possibilidade de se levar uma vida nova sem o casamento ou novos hábitos sexuais estavam claramente riscados. Nesta perspectiva a obra que mais me aguçou a curiosidade ao ser censurada em 1970 foi «Mas o melhor do mundo são as crianças» de Santos Simões.


Este levantamento bibliográfico extenso pode ser consultado aqui

Domingo, 22 de Fevereiro de 2009

Deus do céu


"Se Deus deixou de ser importante, pior para ele. Esperemos que depois de
desaparecer dos vossos campos, acabe por desaparecer das vossas cabeças. Na
minha mocidade, as pessoas ainda acreditavam piamente que esse Deus era um
ancião e habitava algures no céu. Depois apareceram os aviões, e os jornais
escreveram que também já podia medir-se tudo o que havia lá em cima. Ninguém
mais disse que Deus habitava no céu. Em compensação, passaram a considerá-lo uma espécie de gás que, sem estar em parte alguma, conseguia estar em todas ao mesmo tempo. Mas ao ler-se a composição de diversos gases, viu-se que Deus não
constava entre os ingredientes, e assim nem como ar pôde manter-se, pois o
ar já os homens o conheciam. Foi-se portanto, rarefazendo a pouco e pouco e
como que se volitizou completamente. Agora, de vez em quando, lê-se que é uma concepção espiritual e nada mais, o que continua a parecer bastante suspeito.
"


Diálogo de Pelagea Wlassowa na peça de teatro «A Mãe»/«Die Mutter» (1930)


Bertolt Brecht

Quinta-feira, 12 de Fevereiro de 2009

Nietzsche contra Darwin

Hoje que se cumpre 200 anos do nascimento de Darwin, não deixa de revelar-se com interesse uma exploração de contraditórios deste naturalista inglês. Não por questão de desacordo com as teorias darwinistas, mas para conhecer as oposições que Darwin obteve no seu tempo. Uma destas oposições vem da parte de Nietzsche em 1882 e foi incluída na sua obra «A Gaia Ciência». Nietzsche procura limitar a verdade do Darwinismo com alguns ataques pessoais à mistura: refere que o darwinismo tem origem em gente humilde, do povo, pobre e modesto (na verdade, Charles Darwin tinha uma origem bem abastada - nem precisava de ter lutado muito na vida para a sobrevivência, a sua herança familiar garantir-lhe-ia uma vida descansada). Não parte Nietzsche, ao contrário de Darwin, do princípio de Malthus acerca do sobre-excesso populacional, da teoria de que os humanos reproduzem-se em demasia, pelo menos para aquilo que a natureza pode oferecer. A visão de Nietzsche remete para uma natureza abundante, sempre suficiente para o género humano, a evolução não ocorre porque há condições adversas, mas sim pelo excesso e pela ambição. É num clima de excesso que a acumulação de poder ganha sentido.


O excerto segue em baixo.


Ainda a proveniência dos sábios.


Querer preservar-se é expressão de indigência, de uma limitação do próprio instinto fundamental à vida, o qual tende à expansão do poder e, nesta vontade, não poucas vezes põe em questão e sacrifica a autopreservação. Considera-se sintomático, que alguns filósofos, como por exemplo, Espinosa, que sofria de tuberculose, viam, eram obrigados a ver, como decisivo, precisamente o chamado instinto de conservação: tratava-se de pessoas em situação de indigência. O facto das nossas modernas ciências naturais terem de tal modo comprometido com o dogma de Espinosa (ultimamente e ainda mais de forma grosseira como o darwinismo, com os seus incompreensivelmente parciais ensinamentos acerca da «luta pela vida») tem por certo a ver com a proveniência da maior parte dos investigadores da natureza: a este respeito pertencem o «povo», os seus antepassados eram pessoas pobres e modestas, que conheciam muito de perto a dificuldade de sobreviver.


Em redor de todo o darwinismo inglês sente-se como que o ar insalubre do excesso
populacional da Inglaterra, um cheiro da indigência e aperto de gente humilde.
Mas um investigador das ciências da natureza deveria sair do seu recanto humano:
na natureza não domina a indigência mas sim a abundância, o
desperdício, mesmo até o absurdo. A luta pela vida é só uma excepção,
uma restrição temporária da vontade de viver; as lutas maiores e menores
movem-se sempre em redor da vantagem, do crescimento e expansão, do poder, em conformidade com a vontade de poder, a qual é justamente a vontade de viver.

Segunda-feira, 9 de Fevereiro de 2009

Gato Fedorento - Forum Filosofia

Sketche antigo dos Gato Fedorento a parodiar os fóruns televisivos.

Saiba a opinião de Anicete Fonseca, estofador da Buraca, acerca da morte de Deus em Nietzsche; Rui Fonseca, taxista, que acredita numa manipulação dos Media tendente para o existencialismo; Rute Fonseca, doméstica, que acha que a Filosofia não faz sentido; Humberto Fonseca, da Rinchoa, adepto da Escola de Frankfurt e Saúl Fonseca, dono de restaurante em Leiria, acerca dos funcionalistas.

Sexta-feira, 16 de Janeiro de 2009

E se fosse ao contrário?



Sábado, 3 de Janeiro de 2009

Bom Ano!


Faz parte da convenção cultural que uma passagem de ano representa o fim de um ciclo e o início de outro. Os nossos rituais passam por comer 12 passas que darão sorte em 12 meses num ano, em reflectir sobre o ano passado, em fazer promessas para o novo ano, numa turbilhão mediática e social, o ano novo não deixa de nos fazer pensar sobre um pouco isto tudo, pois afinal de contas, a nossa própria perspectiva cronológica rege-se nestes termos.

Se há assunto onde se deseja rápidas melhorias é a Economia. O blogue The Financial Philosopher apresenta-nos uma tabela de estados emotivos relacionados com os estados económicos em cuja acção é cíclica. Encontramos o optimismo, o entusiasmo, a euforia, seguidos da ansiedade, negação, medo, desespero e pânico da vida económica.

Segundo o autor, depois do pânico que assistimos em Setembro,vivemos actualmente num estado entre o desânimo e a esperança, revitalizando o ciclo económico (que nos levará novamente ao optimismo). Não passa de uma idéia é certo, mas a noção que caminhamos para uma realidade melhor não deixa de ser um bom pensamento para este ano. Bom 2009!