Este puxador de porta data de 1927 e é de autoria do filósofo Wittgenstein por altura da construção da casa de sua irmã em Viena. É apreciado hoje em dia pelo amantes da Bahaus devido à sua elegância prática e finura.
Este puxador de porta data de 1927 e é de autoria do filósofo Wittgenstein por altura da construção da casa de sua irmã em Viena. É apreciado hoje em dia pelo amantes da Bahaus devido à sua elegância prática e finura.

Local: Colégio de São Gregório, Valladolid
Anos: 1550 e 1551
Acontecimento: O Conselho das Índias Espanhol reúne-se com a seguinte ordem de trabalhos: qual o estatuto antropológico dos indígenas das Américas?
Intervenientes: Bartolomé de las Casas e Ginés Sepúlveda, mas também Domingo de Soto, Bartolomé de Carranza e Melchor Cano, entre outros.Sala do conselho teológico em Valladolid, e, símbolo jesuíta.
Em 1551 e depois de dois anos de debate, Domingo de Soto elabora um resumo das discussões. O resultado final é inconclusivo, não há vencedores ou vencidos. Sabes-se que este Conselho acaba por decretar o fim das conquistas e a ilicitude da escravidão dos Indíos, mas tal não veio a acontecer de forma factual nos anos próximos. Las Casas chama a atenção para isso, tenta editar cópias piratas com os seus argumentos, mas a iluminação de consciências demorou...
Igreja de São Gregório
Este Colégio pode ainda hoje ser visitado, embora não totalmente. Algumas partes foram destruídas e outras alvo de modificações notantes. As obras de restauro actualmente em curso permitem visitar a Igreja e o Conselho dos Teólogos, já os dormitórios por exemplo estão encerrados, entre outros espaços. Em compensação o visitante tem direito a entrada gratuita. Vale a pena a visita já bem próxima de Portugal.
Com este último ponto acabo a minha visita e estes 9 capítulos de turismo filosófico a locais que me pareceram relevantes. 6500 km ficaram para trás, as planícies de Salamanca e Ciudad Rodrigo cheiram a Portugal... a caminho chego.
É sabido que esta invenção de um imaginário com suporte tecnológico não se ficou a dever unicamente a estes irmãos: na verdade o primeiro filme nem é de suas autorias. Por várias razões contudo, a patente do cinema é aplicada aos Lumiére. Muito menos o são também, pioneiros da duplicação - a fotografia era já uma realidade há muitos anos, contudo, a velocidade com que estes colocaram estas imagens a passar, tornou a visão da realidade mais dinâmica e mais perto do real.
Imagine o leitor o que seria viver num determinado local e apenas contar com a visão que presenciava na sua frente em comparação com ver imagens a passar à sua frente de sitíos muito diferentes dali. Os Lumiére fizeram isso... criaram a primeira equipa de realizadores que enviaram para várias partes do mundo no intuito de filmar, e apenas filmar, o que por lá se passava num registo quase documentário. O primeiro confronto no cinema entre realidade e imaginação é de origem francesa. Se os Lumiére tinham fé na sua invenção que com a sua objectiva iriam mostrar um mundo objectivo, Mélies é o primeiro a partir para a ficção, e a defender que a função da objectiva é a subjectividade.
Filhos de uma família abastada, os Lumiére preparavam uma invenção que poderia trazer o mundo inteiro, tal como era, para junto de qualquer um, onde quer que tivesse. A este facto acompanha o fenómeno da duplicação, isto é, a realidade tem possibilidade de ser reproduzida, os momentos podem ficar gravados e serem visionados já depois de terem exisitido. Começa uma série modificações sócio-psicológicas que irão marcar o Séc. XX.
À semelhança de hoje em dia, a reprodução da realidade foi muitas vezes tomada como a verdadeira realidade, não conseguindo o espectador discernir a cópia do original, facto disto estão os acontecimentos ocorridos durante o visionamento do filme "L'arrivé d'un train à la Ciotat", que pode ser visionado em baixo.
Segundo relatos da época, algumas pessoas sentadas do lado esquerdo do ecrã entraram em pânico, pensando que o comboio ia sair da tela. Há teses a desmentirem este acontecimento, no entanto, o facto de esta estória existir já revela um novo sentimento em relação ao cinema e sua relação com a realidade.
Este jogo entre real e o seu duplo estaria ainda apenas no ínicio, seria preciso ver o futuro onde a duplicação ganha pretensão do real, substituindo-o, e, uma vez ganho o estatuto de realidade, começa a transformá-la em mito e subversão objectiva. Com jogos de tempo e espaço, como um porco que entra numa máquina de onde saem constantemente salsichas, que em rewind faz o público assistir atónico a umas salsichas que se transformam num porco, e, com recurso a takes, depressa estamos em Nova Iorque como na Indochina num jogo rápido e impossível no formato que a realidade em que vivemos tem.
Videos dos Irmãos Lumiére: A Indochina surge em França da forma mais cruel e realista possível no Séc. XIX: colonas brancas francesas dão comida às populações locais como se de pombos tratassem. Um olhar sobre o colonialismo francês sem filtros.
Irmãos Lumiére: Nova Iorque em 1896
Esta nova forma de publicação de sonhos, mas também de reproduções da realidade faz merecer uma visita a Lyon e à casa dos irmãos Lumiére, agora tranformada em Museu. Está aberta de Terça a Domingo, das 11h00 às 18h00 e os preços rondam sensívelmente 5 euros. Na parte de trás da casa encontramos imediatamente a fábrica mais famosa do cinema talvez. Trata-se do local onde foi filmado o primeiro filme, afirmação não de todo rigorosa, mas assim ficou para a tradição. O filme é simples e cruelmente realista, como os Irmãos Lumiére gostavam e defendiam. Infelizmente um incêndio danificou a quase totalidade da fábrica e o processo da sua musealização não foi do melhor gosto, mesmo assim vale a pena a visita.
Fábrica onde foi filmado o "primeiro" filme da História do Cinema
"Basta às vezes um tudo-nada de devaneio, de imaginação, de antecipação, para que a emocionante imagem cinematográfica se veja súbitamente exaltada às dimensões míticas do universo dos duplos e da morte. Consideremos o cinema futuro imaginado pela ficção científica. Vemos desenhar-se o mito último da cinematografia, que é, ao mesmo tempo, o seu mito original: o cinema total, que catapulta para um futuro insondável o que germina no próprio núcleo da imagem, revela-lhe os poderes latentes"
Edgar Morin
in "O Cinema ou o Homem imaginário"
Freiburg im Breisgau, Alemanha, tem uma posição geográfica privilegiada: a poucos quilómetros encontramos a França ou a Suiça, mas também grandes lagos e florestas. O único encanto de Freiburg não reside contudo apenas nos seus vizinhos: a cidade vive por si só: tem personalidade, é carismática e uma história bastante invejável.
É impossível falar em Freiburg sem se falar na sua notável Universidade, neste sentido, Freiburg é uma verdadeira cidade-universitária. Cruzam-se nas ruas gente de diferentes nacionalidades com os seus livros na mão, cadernos, ipods. Uma geração jovem sente-se atraída pelo andar de bicicleta (há uns anos diríamos que estávamos em Pequim), não fosse esta cidade uma das mais emblemáticas na luta contra o aquecimento global. Os parquímetros proliferam, praticamente é impossível estacionar sem pagar, e os preços não são convidativos.
O edificio da Universidade onde é leccionado filosofia é também um corpo principal na cidade. Embora fundada em 1457, este belo edificio foi construido já em 1911 o que não lhe tira o charme. "Die Wahrheit wird euch frei machen" - "A verdade tornar-te-á feliz" é a inscrição que encontramos na fachada também embelezado pelas estátuas de Aristóteles e Homero.
Freiburg pode orgulhar-se de ter 18 prémios Nobel a si associados. Foi também a primeira Universidade alemã a aceitar uma estudante feminina, em 1900. Nos primeiros anos do séc. XX por aqui andou Husserl, sendo um marco na ideia da fenomenologia, simultaneamente, o neo-liberalismo viria aqui a ter nascimento.
À parte pontos negros, a quantidade de nomes que vemos associados é invejável: Max Weber, Leo Strauss, Edith Stein, Herbert Marcuse, Karl Löwith, Emmanuel Lévinas, Karl Jaspers, Martin Heidegger, Edmund Husserl, Annah Harendt, Walter Benjamin, Rudolf Carnap, Erasmo de Roterdão e tantos outros numa lista que não acaba.
Parte-se de seguida para Zurique à procura de Jung como quem parte para Lisboa à procura de Pessoa. Certas personalidades não se dissociam do seu local de vivência, é válido para Andy Warhol e Nova Iorque, Kant e Königsberg ou Kafka e Praga. Normalmente, os génios em ascensão necessitam de viajar e viver um pouco por todo o lado, a fim de obterem novos estímulos, mas também para dar a conhecer ao mundo os seu esforços. Certas personalidades não tiveram contudo a necessidade de desterros tão prolongados, e, se as suas vidas não se caracterizaram por um cosmopolitismo, as suas condições provincianas em nada pareceram alterar a riqueza que ofereceram ao mundo.
É nestes pensamentos que chegamos a Zurique, terra de onde Carl Jung raramente saiu, não deixando de cultivar uma relação próxima com o resto de mundo.
O tanto de si que Jung ofereceu a Zurique, não encontra no entanto, retorno por parte desta cidade. Zurique não é como Praga monopolizada por Kafka ou Königsberg por Kant: tem tantas personalidades a quem prestar homenagem, que Jung por si só não poderia ser a sua iconografia. Einstein, Lenine, Joyce, Wagner, Mann ou Zuínglio, tudo personagens que viveram em Zurique, muita gente para uma cidade só, cujo peso histórico se faz sentir na arquitectura que a Europa vê chique, mas que corresponde ao peso de toda esta cultura de diferentes quadrantes do conhecimento, e que encanta o local com civilização, mentalidade e intelectualidade transdisciplinar.
Entre as montanhas dos Alpes, o Lago Kusnacht e a Floresta Negra. A poucos quilómetros de vários países: França, Alemanha, Lietchenstein, Áustria ou Itália, a Zurique de difícil acesso não deixou de estar em contacto com diferentes culturas onde ali mesmo tinham o seu ponto de tensão: Catolicismo e Protestantismo, Mundo Latino e Mundo Germânico ou, hoje em dia, União Europeia e Isolacionismo. As condições geográficas de Zurique proporcionaram-lhe ser um ponto de passagem entre estes mundos, e que pelos vistos soube aproveitar bem.
É neste contexto de multi-ideias que a Suíça se construiu, num contexto de incerteza, tão relativa até originar um certo isolamento actual. O país-chocolate com paisagens de conto de fadas constituiu certamente o solo da Filosofia de Jung, tão especulativa, mas tão esteticamente acertada. Não querendo com isto afirmar que Jung produziu obras de artes, mas somente que o seu pensamento aliou a sensibilidade aos pressupostos racionais, e o empirismo a uma metafísica muito sua ( e de outros povos do mundo). Jung foi uma das reacções ao espírito científico, propondo uma terapia analítica mais abrangente. Se o conceito de arquétipo choca com os princípios da psicologia comportamentalista, ou o conceito de sincronicidade com os princípios causais de epistemologia contemporânea, Jung não deixou nunca de ser estudado por quadrantes científicos. A associação de palavras é ainda hoje relevante e a teoria de união de opostos influenciou a teoria molecular de David Bohm.
Carl Jung, Estudos sobre a Psicologia e a Alquimia
A Zurique da primeira metade do século XX, foi a Zurique da Filosofia de Jung: com belezas naturais místicas, aberta a pensamentos diversos e terreno fértil para actividades terapêuticas. A Zurique de hoje em dia ainda é a Zurique de Jung, maior, mais cimentada, mas com a manutenção do toque aristocrático que permite um certo romantismo. Ainda é um dos destinos preferidos para práticas terapêuticas, sendo a oferta variada e possuindo uma investigação notável neste campo. O consultório de Jung ainda lá permanece, junto ao lago Küsnacht sob a forma de instituto de investigação, com o seu nome.
Bairro Judaico
Até que chegou 1939... nesse ano Hitler anexa a Áustria e cumpre a sua política de deportação de judeus para campos de concentração. Hohenems não escapou à excepção e a sua população judaica rapidamente decresce para o número de zero. Alguns conseguem escapar à deportação exilando-se, ao que hoje em dia esta pequena vila fala com orgulho de uma "Diáspora de Hohenems". Uma parte significativa desta vila desaparece nestes anos de Guerra, e com isso a problemática de se dividir entre uma tradição de cultura, de afectividade, de sangue e de economia e uma nova ideologia institucional de um Estado que nem sequer é o dos austríacos. A confusão parece não desaparecer nos anos seguintes, sendo o ex-bairro judaico marginalizado com construções arquitectónicas duvidosas e descaracterizantes, chegando a sinagoga a ser convertida em quartel de bombeiros.
Antiga e Nova Sinagoga de Hohenems
A Hohenems de hoje é uma tentativa de reconciliação com o seu passado antes de 1939: o bairro judaico é ponto central do seu turismo e, em 1991, é fundado o Museu Judaico, que cumpre um importante papel na reunião de judeus de Hohenems espalhados pelo mundo assim como o recomeço da vida judaica pós-1945 e "disputas acerca da memória e tabus"
Jean Améry foi um filósofo com ascendência em Hohenems, embora não tendo lá nascido foi ali que passou a sua infância, e dali era originária toda a sua família. Como muitos judeus de Hohenems tinha uma ascendência misturada, visto que a sua mãe era cristã e o seu pai judeu. O próprio Améry considerava-se austríaco e não judeu, daí não compreender a perseguição que lhe foi feita pelos alemães, obrigando-o a refugiar-se em países como a França ou a Bélgica. É neste último país que é preso e deportado para Auschwitz, sempre na dúvida para com ele próprio se seria judeu ou não. Esta tema assombrará a vida de Jean Améry, de uma educação cristã, com sangue judeu e nascido na Áustria, nunca compreenderá rigorosamente a que cultura pertencia. Esta falta de metafísica foi dura para Améry no campo de concentração, considerava-se um intelectual, e nessa condição tinha tudo a perder contra os seus colegas judeus que encontravam na crença a energia para sobreviver a Auschwitz. No entanto, numa realidade que segundo o próprio nada tinha de interpretativo, o intelectual perdia o seu modus vivendi em confronto com uma imagem quotidiana de horror. É esta experiência que usa para escrever a sua obra "At the mind's limits" onde afirma que as raízes da civilização Ocidental não estão assim tão firmes, apenas são vistas como garantidas. Na segurança do nosso mundo materialista actual não estamos conscientes da força que o Outro pode ser absoluto e pode usar o seu poder absoluto para infligir sofrimento. O Holocausto representa a essência e não um acidente do regime nazi, e a principal herança a ser estudada pelo humanismo. Se entendemos por dignidade o direito a viver com garantias em sociedade, então o III Reich é um exemplo de como essas garantias podem acabar. Salienta contudo, que os crimes do Holocausto não tem qualidade moral: quem o fez apenas o viu como uma objectivação da sua vontade, e não como um evento moral. Aqui Améry desmarca-se das posições habituais judaicas que clamam uma victimização assente na ideia de uma qualidade moral por parte do Outro. Améry crê que o futuro da população judaica deverá ser o desaparecimento da victimização que a torna em objecto, e deverá procurar o seu sujeito-próprio.
Tal como Primo Lévi defende que deve ser o homem a tomar conta da sua própria vida. Sobrevive ao Holocausto e suicida-se em 1978.Na cidade de culto dos românticos, Heidelberg, encontramos o Passeio dos Filósofos. Trata-se de uma inclinação inicial bastante acentuada que parte do Centro e continua por uma zona da parte topo, onde se avistam o verde e o rio em conjugação com as casas da Cidade. O passeio dos Filósofos é uma rua distinta, é um meio em si, não têm como finalidade o seu destino, como acontece em todas as ruas, é no seu próprio usufruir que está a sua funcionalidade.
Muito verde e calma, a rua começou como lugar de culto no séc. XIX, numa altura em que para qualquer especialização académica todos os estudantes tinham que passar necessáriamente pela filosofia. A única academia da toda a rua é o Instituto de Física, e no entanto aquele passeio foi frequentado por estudantes, todos "filósofos". Ilustres personagens como Hölderlin, Goethe, Brentano ou Hegel avistaram o rio e passeavam nas imediações do Castelo num passeio de reflexão com a natureza como exigia o pensamento romântico. Assim se fazia o passeio dos filósofos.
Hölderlin escreveu uma Ode a Heidelberg que tudo lembra as vistas do passeio dos filósofos, assim vai (tradução literal):
"Lange lieb ich dich schon, möchte dich, mir zur Lust,
Mutter nennen und dir schenken ein kunstlos Lied,
Du der Vaterlandsstädte
Ländlichschönste, so viel ich sah.
Wie der Vogel des Walds über die Gipfel fliegt,
Schwingt sich über den Strom, wo er vorbei dir glänzt
Leicht und kräftig die Brüke
Die von Wagen und Menschen tönt."
"Há muito tempo que te amo e quero para meu prazer,
Chamar-te mãe, e dar-te música,
Ó tu, das cidades de minha terra natal
Eu vejo o mais rústico e o mais belo.
Como o pássaro voa sobre a floresta,
Se ergue ao longo do rio que brilha a seus pés,
Em sua força leve
O som de carros e gente na ponte."
Cidade de Terneuzen: Bébé nasce de um ovo, que é também o mundo, e, indivíduo contempla o mar, sem braços para o conquistar.
Cisnes transportam um disco azul com várias línguas do mundo, e, barco dos Descobrimentos com rosto humano na sua frente
O caso holandês aos olhos de hoje seria visto quase como o funcionamento do sistema político Americano: pouca intervenção do Estado na economia, regulamentação do Estado da economia. País com experiência multicultural, a Holanda depressa entendeu as vantagens de um Estado Laico a comandar uma população com diferentes visões: católicos, protestantes ou judeus. As viagens marítimas foram financiadas essencialmente pelo pequena burguesia emergente naquele país, que criando um sistema de acções e de Sociedades Anónimas lançavam barcos à água com interesse óbvio de reaver o dinheiro investido. É talvez polémico dizer que a Holanda foi um país colonizador no sentido cultural, visto que o interesse estava nos dividendos económicos arrecadados das suas investidas. Numa sociedade com tantas culturas não pode haver uma verdadeira missão nacional, e por isso, os Holandeses descobriram no séc. XVI o que nós andamos a descobrir no séc. XXI: que o dinheiro é o denominador comum entre as culturas. Se os Africanos gostam de tecidos de cores garridas e nós gostamos de ouro, porque não fazer uma troca? Desinteressados por uma fusão cultural, que teria que ser necessariamente unidireccional, os Holandeses, permitiram outras culturas respirar. Como consequência para o seu Ego Nacional, a Holanda praticamente não deixou marcas onde esteve: Brasil, Angola ou Indonésia. A pequena Guiana e a zona do Transval na África do Sul (já em desaparecimento) são raras excepções.
Algo mais semelhante aos pontos de vista holandeses encontra-se na controvérsia entre D. Afonso de Albuquerque e D. Francisco de Almeida, tendo a Corte portuguesa na altura preferido as opções do primeiro. D. Afonso de Albuquerque defendia que o poder colonial português deveria assentar na conquista terrestre, na colonização própriamente dita, ao passo que D. Francisco de Almeida preferia um regime de talassocracia ao estilo do dos antigos Fenícios, o poder de Portugal deveria estar na sua armada fazendo apenas contactos mercantis controlando o comércio em todo o Oceano Índico. Na consequência da tomada de decisão de D. Afonso de Albuquerque conquistou-se Goa e Malaca (os planos de Albuquerque previam até a conquista de Meca), verificando-se uma alto nível de custos por ocupação terrestre e problemáticas envolvidas com as populações conquistadas.
Nos arredores de Bruxelas, no bairro de Anderlecht, encontramos a casa onde por um período curto de tempo viveu Erasmo de Roterdao. Em 1521, Erasmo permaneceu uma longa temporada em casa do seu amigo Pieter Wychman. É essa casa que pode ser visitada hoje em dia transformada em La Maisón d'Érasme/ErasmusHuis. Localiza-se na Rue du Chapitre, 31 e é visitável todos os dias, à excepçao das segundas-feiras, entre as 10h00 e as 17h00. A entrada é livre.
Em 2000, quatro artistas baseando-se no colóquio de Erasmo, "O Banquete Religioso", criaram um jardim filosófico nas traseiras da casa de modo a que se possa desfrutar de um ambiente de reflexao. A ideia é partir da diferenciaçao que os romanos faziam entre ócio e negócio/ otium e negotium. Negócio corresponde a trabalho, ócio corresponde à capacidade de nao se fazer nada mas ser livre para nos focarmos em nós próprios e nos outros. É este último conceito que o jardim pretende retratar.
"Ubi amici ubi opes" - "Onde há amigos, há saúde"
O jardim tem um série de lagoas com inscriçoes em latim. A água é limpa e fácilmente se cria um espelho de água. A idéia é criar um espelho do mundo com frases que o interpretem. A artista Marie-Jo Lafontaine baptizou este trabalho de "Lágrimas do Céu".
Observar o mundo: mais de 11.500 lentes oculares fazem este bloco no meio da natureza. Pretende descrever o período de quarentena em "o Banquete Religioso". O mundo oferece múltiplas interpretaçoes, no céu está o equilíbrio e a estabilidade, e por isso,esta obra nao tem tecto. Fortemente influenciada na corrente perspectivista do Renascimento.
Da natureza até à civilizaçao. Estes bancos de jardim crescem partindo da natureza, quer seja a raíz de uma árvore ou o caule das plantas.
Afirmar que existe turismo filosófico parece paradoxal, afinal o que é fazer uma visita filosófica? Devido ao facto de nao se poder referir a uma viagem de observaçao vulgar, fazer turismo filosófico seria em latu sensu viajar pelas idéias. O turismo filosófico seria neste caso uma viagem sem se mover no espaco, pelo facto, de até dentro de nós mesmos podermos fazer uma visita de estudo filosófica num espaço mental. Em alternativa, a própria internet e os espaços virtuais de filosofia que existem, permitem rigorosamente um turismo filosófico.
Àparte disto, existe a curiosidade entre os admiradores de filosofia de conhecer as personalidades filosóficas, e nao só as filosofias em si. Acontece em todas as áreas: é com toda a naturalidade que um político lê uma biografia de Alexis de Toqueville, um biólogo uma biografia de Lamarck ou um físico uma biografia de Max Planck.
Assim sendo, quero referir-me neste post acerca do turismo relacionado com as personalidades filosóficas. Nao pretende ser um fait-diver das mesmas, mas tem o intuito de como qualquer biografia, descobrir o que levou a personagem em causa a tornar-se no que se tornou.
Entre Poitiers e Tours, nos arredores de Châtelleraut, encontra-se a pequena aldeia onde a 31 de Março de 1596 nasceu Descartes, entao designada "La Haye". É ali mesmo que encontramos a Maison de Descartes. Trata-se da casa onde nasceu e viveu até aos dez anos de idade o famoso filósofo francês. É um pensador demasiado grande para a dimensao que a aldeia tem, mas seja como for, o trabalho está bem feito. Um gesto de menos gosto foi terem mudado o nome da aldeia de "La Haye" para "Descartes" (é essa mesma a sua designaçao oficial). A casa está bem conservada, encontra-se aberta todos os dias a partir das 14h00 e cada entrada-adulto custa 4,50 euros. O seu interior revela-se contudo bem diferente daquilo que um turista curioso poderia esperar: nao é propriamente um cenário do que seria a casa onde o filosofo nasceu, mas antes uma remodelaçao total preenchida com escritos em redor da filosofia de Descartes. Desta forma, torna-se mais um Museu da sua Filosofia, do que própriamente de Descartes-pessoa. Para quem já leu Descartes nao encontra nada de novo, para quem nao domina francês a visita é quase dada por perdida e para quem acha difícil ler escritos extensos e com a profundidade própria da filosofia em espaços públicos o resultado final da visita é quase nulo. A divisao da casa está no entanto, criativamente bem elaborada: no r/c encontramos descriçoes de como era o mundo no tempo de Descartes, e no primeiro andar encontramos escritos relativos à sua filosofia própriamente dita. A idéia é criar um primeiro andar dedicado ao corpo (a res extensa) e um segundo à alma (a res cogitans). Existe também uma cave com os filósofos mais conhecidos. Aqui, aparecem os comentários destes filósofos acerca da obra de Descartes. No caso de serem anteriores, aparecem o comentários de Descartes sobre estes filósofos.
Vista a Maison de Descartes, e centrando a visita mais em Descartes-pessoa, vale a pena a vista ao centro da aldeia, onde figura uma estátua ao filosófo. Na igreja local pode-se visitar a pia baptismal onde este foi baptizado segundo inscriçao que acima apresento. O quotidiano das pessoas da aldeia parece fazer tudo para que Descartes entre nas sua vidas (algumas das nossas localidades precisavam desta mentalidade) e assim, nos panéis turísticos espalhados pelo centro visualiza-se comentários do filósofo. Assim, o painel turístico da Igreja tem um comentário de Descartes à religiao, e na rua das lojas, um comentário acerca do comércio.
«No mundo da actualidade, só os efeitos são relevantes»
California Dreamin'
Ano: 2007
Realizador: Cristian Nemescu
Em 1999, durante o conflito no Kosovo, um contigente da NATO transporta um sistema de comunicações urgente para a guerra em curso por via ferroviária atravessando as paisagens mais desérticas da Roménia, que por razões geográficas se viu indirectamente envolvida no confilto. Num comboio com um contigente americano de Marines vêm-se obrigados a parar na pequena estação de Capalnita, aldeia interiorizada e esquecida em território romeno. Na contigência de situação de Guerra as formalidades burocráticas parecem ser o menos importante, não é contudo o que pensa o chefe desta estação, Doiaru, um velho romeno para quem as leis alfandegárias devem ser cumpridas a todo o custo, e sem qualquer excepção. Um grupo de dezenas de militares americanos, fortemente armados encontram-se na obrigação de ficarem retidos nesta estação à mercê de um só homem, que tem o poder de decisão sobre os movimentos ferroviários ali efectuados. Impossibilitados de realizar qualquer tipo de coacção, embora tendo todos os meios para isso, os Marines cumprem custosamente os seus principios de Diplomacia num país neutro na Guerra, a que só podem reagir a ataques mas nunca iniciar um ataque. Ataque esse que acaba por nunca acontecer. Entretanto, espalha-se a notícia na aldeia que como é natural, abala o morno quotidiano a que estão habituados. Os locais fazem então tudo para que a sua aldeia seja notada por este povo vindo de uma realidade tão diferente e avançada. Improvisam a festa anual da aldeia num só dia, embora esta festa anual tenha na verdade ocorrido no mês anterior, exibem os seus monumentos e belezas a fim de cativarem os americanos para que gostem deles. As adolescentes cristãs entram em histeria perante tal invasão masculina e vão à procura do seu California Dreamin' tal como ouvem na música das suas aparelhagens e nas televisões de suas casas.
California dreamin' é um filme sobre o choque cultural entre mundos muito diferentes: a pacatez da ruralidade com a mentalidade globalizante do pensamento americano; a pobreza e a vida simples com o pensamento individualista e ambicioso; a vida informal e desinteressada com o profissionalismo e a ética do trabalho; o pudor imaculado cristão com as hormonas masculinas de soldados de guerra solitários de cultura hedonista; o complexo de inferioridade com o complexo de superioridade. Numa lógica de "a caneta é mais forte do que a espada", um simples chefe de estação sem estudos e que mal fala inglês consegue prevalecer a sua vontade de honrar a lei (mesmo contra ordens superiores) contra a força das armas das tropas que ali permanecerão estacionadas 5 dias e que abalarão a vida social e política da aldeia. Um bom documento sobre a cultura romena que qualquer fã de «Gato Preto, Gato Branco» não deve perder. É também o documento final deste precoce realizador, Cristian Nemescu, que faleceu antes de concluir a pós-produção deste filme, com apenas 27 anos.